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No vestiário


Toda polêmica de hoje em dia costuma seguir a mesma sequência de acontecimentos: um grupo, próximo do comportamento dominante, recrimina algum comportamento de um grupo menos influente. A minoria se defende e o outro grupo diz se faz de vítima, dizendo que tem a razão e que a minoria tem mais é que ter vergonha na cara.

Foi assim com o discurso homofóbico e racista do Feliciano, foi assim com quem defendeu a Nicole Bahls do machismo do Gerald Thomas, é assim a cada vez que um grupo de funcionários faz greve. Enxágue e repita a operação.


Uma das atmosferas mais interessantes que tenho frequentado é o vestiário da academia onde faço natação. Nenhum lugar é mais propício para se observar o comportamento humano do que aquele em que todos ficam pelados, molhados e secando os dedos do pé ao mesmo tempo.

Um dia desses, enquanto saía do banho, escutei o rapaz que ocupava o chuveiro ao lado cantar a plenos pulmões. Achei corajoso. Costumo achar bonito quando alguém tem os colhões para fazer o que eu não faço por ter medo de alguém achar feio.

Ele não cantou nenhuma música reconhecível. Ficou no larará clássico de chuveiro, improvisando, como se estivesse em sua própria casa, como se não tivesse medo do vizinho escutar.

Quando terminou o banho e abriu a porta da casinha que ocupava, pareceu tomar um susto com a minha presença lá. Parou de cantar e não disse nada.


Menos de uma semana depois, a cena se repetiu. Enquanto eu me vestia para tomar a rua, escutei uma voz de criança cantando. Poucos sons são tão genuinamente alegres quanto esse.

O rapaz que cantou no outro dia também estava por lá. Foi até a criança e falou “Dá pra parar de cantar, por favor?”.

Depois de receber um ou outro olhar reprovador dos outros homens do vestiário, tentou consertar escorregando para uma brincadeira. Soltou uma gargalhada. “Brincadeira, pode cantar sim. Criança é o máximo, né? Nem aí pra quem tá ouvindo. Mas tem de fazer umas aulinhas, hein?”

O menino que cantava, com uns seis ou sete ano de idade, ficou constrangido e se calou.


Num outro dia, escutei a conversa desse mesmo cara com um homem, também no vestiário.

Sabe porque eu gosto de estudar Direito? Porque me garante poder. Ninguém mais fode comigo, porque eu sei como eu posso foder com a vida de quem me incomoda.”

Eu sorri, preferindo ficar em silêncio perante a onipotência do rapaz.  

Porque eu tenho conhecimento”, ele continuou, “e quem tem conhecimento se dá melhor do que esse povo aí, que não sabe nada. É fácil passar por cima dessa gente

O amigo dele também estava em silêncio – talvez também estivesse constrangido com o que ouvia. O discurso continuou:

Eu luto pelo meu conhecimento, sabe? Na faculdade, se eu tiro um oito eu já fico indignado. Oito pra mim é pior do que zero. É medíocre. Eu não admito tirar nada menos do que dez.”

Já pensou em procurar um psicólogo?”, me ocorreu dizer. Não disse.


Eu ia falar sobre como a própria reprovação por ter se deixado cantar no chuveiro pode ter feito o meu colega de academia reprovar tanto o canto da criança. Eu poderia falar sobre como as pessoas inseguras com o que são censuram quem não demonstra a mesma insegurança, como o Feliciano e os reacionários de plantão costumam fazer.

Só que isso seria irônico demais, sendo que eu me incomodei e reprovei o comportamento do rapaz do vestiário de se achar melhor do que os outros. Afinal, pode muito bem ser eu mesmo o invejoso. Pode ser que eu simplesmente deseje ser como uma dessas pessoas que, se fossem a Lua, chamariam o Sol de coadjuvante.

Pode ser, também, só medo de levar um processo. Afinal, ele fez questão dizer “Eu posso foder com a vida de quem me incomoda”. Melhor eu ficar quieto.

Espero que a criança cantarolante, que é mais forte que eu, mantenha a resistência.

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