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Fora do meio

Na cidade pequena em que eu morava, os poucos gays que eu conhecia formavam uma panelinha. Como qualquer grupo de adolescentes, eles agiam do mesmo jeito, falavam as mesmas gírias e usavam as mesmas roupas - e o mesmo tipo de tênis que eu não tinha dinheiro suficiente para comprar.

Eles eram ótimos em oferecer uma imagem de felicidade e diversão constante. Eu me roía de inveja, mas sempre dizia aos meus amigos de internet que aquele grupinho era ridículo e que eu queria mesmo era distância deles.

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Pega bem para um militante político dizer "Ainda tenho meus preconceitos, todos tem... Mesmo que inconscientemente". É uma boa maneira de se incluir se excluindo: todos são preconceituosos, mas comigo é só onde a minha consciência não toca.

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Eu carrego a bandeira do movimento gay com o maior orgulho, mas isso não me impede de julgar meus companheiros e de ter meus preconceitos. Entre gays, é comum ver alguém se orgulhando de ser "de fora do meio". É como um carimbo que se bate em quem não frequenta as boates, dizendo que é de uma cepa mais pura de macho.

Eu sempre fiquei entre os dois - com a auto-estima baixa demais pra frequentar uma boate sem querer sair chorando e politizado demais pra se dizer que eu sou de "fora-do-meio".

Por isso, quando um namorado que também fazia o papel de quem não gosta da "cena gay" começou a querer frequentar esses lugares - às vezes comigo à tiracolo, às vezes sozinho - tive um siricotico e precisei enfrentar de verdade alguns dos preconceitos que eu carregava.

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Ter tido uma infância com pouca grana me fez repetir, durante a adolescência, que roupa de marca é coisa de gente insegura. Que beleza não é tudo. Que eu poderia não ter nenhuma dessas coisas, mas que isso não me faria diferença porque eu teria cabeça o suficiente para ter uma vida legal sem isso.

Foi duro quando percebi que existe gente linda e com roupa de marca que também é inteligente. Gente que além de ler bons livros sabe ir a uma boate e dançar sem se preocupar com quem está olhando. E que, enquanto faz as duas coisas, fica ridiculamente atraente numa foto sem camisa.

Comecei a me torturar com a imagem do meu namorado cercado por essas pessoas. Ele, em uma boate, cercado por caras bonitos, rindo de tudo aquilo que eu não acho graça e se divertindo. Uma foto perfeita, com um verniz que eu não sou capaz de oferecer.

Nessas horas a gente percebe que ser humano e cheio de falhas é uma bosta.

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Quando menos percebi, eu estava odiando essas pessoas.

Essas que vão a boates e gostam, essas que conseguem mostrar pro mundo uma beleza que não é a que eu tenho. Pessoas que, se eu tentar medir com a régua que eu costumo usar para me sentir melhor que os outros, vão se revelar melhores que eu - na beleza, no papo, na segurança.

Pode ser porque eu realmente não gosto de boates e de roupas de marca, pode ser porque eu ainda sou a mesma pessoa que queria pertencer a um grupinho desses quando era adolescente e não conseguia.

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Talvez seja só ciúmes do namorado mesmo.

Mas ele pode sair o quanto quiser - não ter roupas de marca e não sair pros lugares da moda me obrigou a me garantir onde realmente conta - e lá não se usa roupa alguma.

Comentários

  1. Anônimo10:20 PM

    Muito bom o texto.
    Mas duvido você não ser bom "na beleza, no papo, na segurança".

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  2. Muito bom o texto. Compartilho a experiência. Muitas semelhanças nessa curta vida. Tenho, hoje, dificuldade de frequentar ambientes gays. E não é só pela valorização excessiva da aparência. A questão é o motivo que os levam a essa valorização. É o querer aparecer melhor que o outro. Mais bem vestido, mais bonito, mais inteligente, mais politizado. Enfim, mais aparecido. Não me importo ser visto ao lado de gays afeminados, sarados, travestis, ou qualquer outro esterótipo de identidade de gênero e sexualidade. O que me incomoda é conviver com gente engessada. Existe uma falta de naturalidade muito grande. Me sinto muito atraído por pessoas com um vasto conhecimento... mas o monólogo delas, com o objetivo de engrandecer a própria figura, pormenorizando o que sabem e o que têm, ahh, isso cansa. E me faz querer evitar. E não é por não gostar dos lugares. Gosto de dançar, sair para beber... Contudo, isso tem se tornado raro na minha vida. Quero evitar pessoas se vangloriando da roupa que veste, do poder de compra que tem, do namorado novo. E vai...

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  3. Plinio Komonski12:25 AM

    Muito bom, irmao! Mas eh soh ciume. E isso passa! ((: abracos!

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