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Economia

Eu sou, entre os meus amigos, um notório pão duro.

Não que eu negue pagar a rodada de cerveja quando chega a minha vez, mas antes de sair todos já sabem que eu vou fazer campanha pra irmos ao bar mais barato.

Não me interessa o som ambiente, os móveis de designer famoso ou "gente bonita". (Parênteses: quando me falam que um lugar é bom porque tem gente bonita, eu já sei que o lugar é ocupado por gente branca - quase sempre se sentindo especialpor estar uma camisa de duzentos reais igual a que todos ao redor estão usando.)

O que me interessa é a promoção de duas cervejas por cinco reais.

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Estudando psicologia, você se aproxima e cria distância da própria saúde mental ao mesmo tempo.

Não dá pra ficar analisando tudo o que se sente o tempo todo, então você se assusta quando percebe que não está legal não pelo próprio sentimento, mas por observar os sintomas que tem apresentado:

"Peraí, já é o terceiro dia em que eu não consigo sair da cama e choro antes de dormir."
"Opa, tô pegando pesado no doce ultimamente."
"Esse comercial do Itaú é tão emocionante, né?"

E, por último, somando todas as alternativas:

"Puta que pariu, será que eu tô triste?"

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Estava fazendo um sanduíche de queijo e presunto pro café da manhã e reparei que o presunto é mais barato, por quilo, do que o queijo. Aliás, o quilo de carne é mais barato que o queijo.

O que me deixa confuso, já que a vaca leiteira é reaproveitável e o boi morto não.

Na minha pirâmide alimentar, a felicidade trazida por uma fatia de queijo é muito mais importante que a proteína trazida por uma fatia de carne.

Como todo bom pão duro, fui aos cálculos: segundo os especialistas gabaritadíssimos do Yahoo Respostas, uma vaca produz em média 30 litros por dia.

Por não poder exagerar no café preto por conta de uma gastrite, só eu bebo sozinho um litro de leite por dia.

Se cada pessoa em Curitiba tomar metade do leite que eu tomo, precisaremos de cinquenta mil vacas dando o melhor de si todos os dias, só pra abastecer a cidade.

Isso sem contar o que vira queijo e iogurte. É um exército de vacas.

Pobres bezerrinhos.

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O pão-durismo é o maior indicativo de pessimismo que uma pessoa pode ter. Por trás da fachada de fazer bons negócios, mora o fantasma de que não há o suficiente para todos. Mora a necessidade de economizar tudo, pra economizar a si mesmo diante do sofrimento que a vida pode trazer.

É uma fantasia quase apocalíptica para quase tudo.

O preço do litro de leite no supermercado vira desculpa para se preocupar com as vacas, com a quantidade de pasto, com os bezerros. O litro de leite caro indica que está tudo errado, e pode levar a uma crise de choro ainda mais potente do que a causada pelo comercial do Itaú.

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Leite de soja definitivamente não é a mesma coisa que leite normal. Acredito que a solução seja produzir um pequeno animal transgênico que consiga dar leite custando pouco.

Você acorda, vai à cozinha, sua gata ronrona pra você. Você faz um carinho no pescoço dela, ela deita, você pega sua xícara e tira duzentos mililitros de leite para o seu café.

E depois cai no choro por estar explorando sua pobre gatinha, que nada tem a ver com seu vício em cafeína.

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Ainda assim, o litro de leite a três reais ainda é mais vantajoso do que duas cervejas por cinco. Primeiro, porque quase não existe mais bar que venda duas cervejas de 600ml por cinco reais. Segundo, porque quando vende, o que você bebe não pode muito bem ser chamado de cerveja.
Terceiro, porque o litro de leite a três reais pode te dar uma vontade de chorar que só se atinge normalmente depois da sexta cerveja.

É uma questão de economia.

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