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Desvios

Falando sobre sexo numa mesa de bar, um dos assuntos que mais pegam fogo é o "desvio" - isto é, gente que, na hora de fazer amor, precisa de um incentivo diferente do que as propagandas de cerveja dizem ser o normal.

Sejam desvios mais comuns (como o homem que prefere fazer amor pelo bumbum) ou incomuns (o que precisa ser pisoteado por uma moça de salto alto vermelho que lhe chame de "meu neném"), todo mundo tem uma história pra contar de alguém com uma tara esquisita.

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Em uma madrugada numa sala de bate-papo, recebi de um homem a oferta de mil reais em troca de deixá-lo lamber meus pés.

Nunca tive a capacidade moral para conseguir aceitar dinheiro em troca de sexo (prefiro moedas de troca menos dignas, como um aumento temporário na auto-estima ou escutar alguém mentir que me ama), mas resolvi dar corda para o rapaz.

O problema é que ele foi aumentando o número de exigências: depois de cinco minutos de conversa, ele disse que não queria apenas uma sessão de lambimento em troca dos mil reais, e sim duas.

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Quinhentão por cada meia hora de lambidas seria nojento, mas eu realmente precisava de grana. Continuei dando corda. Ele seguiu:

"Eu gosto de pé fedido, sabe? Se você não se importar de passar uns dois dias de meia molhada antes da gente se encontrar..."

Comecei a achar que os mil reais não seriam um bom negócio. Ele continuou com as exigências, sério como um presidente de multinacional prestes a concluir uma fusão:

"E aí, depois de eu lamber seus pés, você pode montar nas minhas costas e me tratar feito um cavalinho. Pode me bater, pode me fazer andar de um lado pro outro no quarto, pedir pra eu limpar o chão com a língua, sabe? Coisas assim."

Cortei a conversa por ali mesmo. O que me assustou não foi nem o cavalinho. Foi o "Coisas assim." Que tipo de coisa bizarra entra no conjunto de coisas similares a montar numa pessoa feito cavalo e fazê-la passar a língua nas suas frieiras?

Melhor ficar sem os mil reais.

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Tá certo, nem todo mundo chega nesse extremo. Mesmo assim, basta entrar em qualquer ônibus para ver a quantidade de senhorinhas lendo 50 Tons de Cinza com a periquita em fogo para levar umas porradas. A quantidade de gente que quer coisas fora do comum na cama é imensa. Alguns por curiosidade, alguns - me parece - por trauma.

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Percebo com cada vez mais clareza que o mecanismo por trás dos desvios nas preferências sexuais é uma das coisas mais bonitas da vida.

É como se a vida estivesse fluindo no seu curso normal, até ser interrompida por um trauma qualquer. Aí, essa energia vital - vamos chamar de amor, pra ficar mais bonito - não pode ficar parada. Ela precisa continuar correndo. Como não consegue mais correr do jeito que corria antes, faz como a água de um rio que desvia uma rocha e encontra uma nova direção.

Por isso, por exemplo, um homem que foi forçado a ser exageradamente masculino em alguma área da sua vida pode precisar equilibrar sua energia recebendo prazer ao ser penetrado por sua parceira. É o fluxo do amor achando um caminho para fluir.

Ou ainda, para uma pessoa que não teve a chance de aprender as sutilezas do carinho no decorrer da sua vida, achar um parceiro que lhe dê porrada na cama pode ser justamente sua salvação. Quanto mais insensível é o mundo que cerca alguém, mais agressivo o toque vai precisar ser para que o recado do amor chegue onde precisa.

Por isso me recuso a chamar essas tangentes sexuais que tantos de nós temos de perversão. Não é perversão. É salvação.

Como uma planta que cresce com o caule torto para conseguir alcançar a luz do Sol,  o desvio é a maneira que a vida encontrou para que uma pessoa seja capaz de receber amor, apesar dos traumas que tenha sofrido.

Aliás, muito esperto da natureza fazer isso. Se os traumas são inevitáveis, o amor também é - ainda que precise sofrer desvios no caminho.

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Agora, que eu gostaria muito de saber que tipo de trauma sofreu a pessoa que entrou no blog procurando no Google por "freiras lésbicas taradas de quinze anos chupando um martelo coberto de chantilly", eu gostaria.

O que a mãe dessa pessoa fez, Jesus?

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