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Sexo Casual

Nunca fui uma pessoa de fazer sexo casual.

Sempre fui mais de ter relacionamentos casuais, no sentido de conhecer uma pessoa casualmente e depois passar cinco anos com ela.

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Uma vez, entre um relacionamento longo e outro, resolvi dar uma chance ao acaso e experimentar transar sem compromisso. Não fui a uma boate porque a grana e auto-estima estavam curtas. Entrei em um bate-papo online para caçar.

Como sou tagarela até por escrito, acabei fazendo amizades naquele dia que duram até hoje. Depois de umas duas horas conversando com pessoas e aprendendo sobre seus fetiches, uma pessoa foi particularmente insistente comigo. "Não, não vamos marcar pra amanhã. Eu quero agora", ele disse.

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Em pânico, recorri ao método mais eficaz de tomada de decisões disponível para o ser humano hoje: o Tarô online. Não lembro mais que carta saiu, mas ela dizia alguma coisa como "Meu, aproveita logo essa vida. Deixa de ser cagão. Saia da sua rotina e você vai ter histórias para contar para o resto da vida".

Já que estava amparado cientificamente em minha decisão, mandei o menino vir para o meu apartamento.

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Já eram umas duas horas da manhã. Encontrei-o no portão do prédio (caso eu reconhecesse o garoto de algum retrato falado que eu tivesse visto nas duas vezes que assisti ao Cidade Alerta, eu poderia correr pra dentro).

Era bonito, ele. Subimos o elevador conversando tranquilamente, o que explica o susto que eu tive quando fechei a porta do apartamento e ele ficou pelado instantaneamente.

Ok, o combinado era esse. Vamos transar.

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Uma coisa interessante sobre namorar homens é que você nunca tem certeza de como é o pinto do fulano só por ver a cara. É sempre um suspense a hora de tirar a cueca.

Enfim, vocês já viram um pinto piramidal? Tipo, grosso e meio quadrado na base, afinando até a ponta e terminando em uma cabecinha que parece ter passado por um apontador de lápis?

Pois era mais ou menos assim.

Mas tudo bem, quem sou eu pra falar que o meu pinto é mega-simétrico? Nada de errado naquele pinto até que o guri respirou fundo, olhou fundo nos meus olhos, olhou para o meu corpo, fez carinha de safado e... cuspiu no próprio pinto.

Assim, do nada. Só cuspiu no próprio pinto. E fez cara de safado de novo.

"Eu... eu... eu não curto isso...", respondi. Ele se decepcionou, mas não cuspiu mais em nada.

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Vou poupá-los dos piores detalhes - ah, sim, tem detalhes piores - e vou direto para o pós-coito, que foi realmente o ponto alto da noite.

Estavamos deitados, lado a lado, juntando fôlego, depois de pelo menos umas duas horas juntos. Lembrei de uma coisa importante e resolvi perguntar.

"Você me desculpa eu não ter perguntado antes, mas... qual o teu nome?"

Ele pareceu desapontado. Tentei adivinhar e dar uma aliviada no ambiente com uma piada.

"Não é Cleisson, né?", e ri.

"É Cleiton.", disse ele, muito sério.

Ops.

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A situação foi piorando, mas eu não desisti de levantar o clima. "Teu mamilo é bem firme, né?"

"É."

"Tem que ver se você não tem câncer de mama, né?", e ri novamente, como um idiota.

"É."

"Agora você diz que sua mãe morreu de câncer de mama e eu fico me sentindo péssimo."

"Minha avó morreu de câncer de mama."

"Putz, Cleiton. Desculpa."

"Minha mãe morreu atropelada. Mês passado."

considerei a possibilidade de ele estar sendo sarcástico só pra brincar comigo, mas aí ele começou a chorar.

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Depois disso, foi o resto da noite bocejando para ele se mancar e ir embora.

Não sei porquê, mas nunca mais voltamos a conversar. Ainda assim, o Tarô online estava certo. É uma boa história para contar.

Principalmente quando eu tiver netos.

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