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Vamos falar sobre sexo

De cada 10 comentários que eu recebo de gente que convive comigo, em média seis são falando que eu falo demais sobre sexo.

Faz sentido. Estranho é que eu escreva tão pouco sobre isso.

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Existem dois tipos de pessoas, e elas se distinguem pela maneira que reagem a uma crítica.

As mais autoconfiantes e defensivas tem como reagem a uma crítica pensando "essa pessoa tem algum problema, e por isso me criticou". Os mais reflexivos e de auto-estima mais baixa pensam "eu tenho algum problema, por isso fui criticado".

Eu costumo fazer parte do segundo grupo.

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Vai aqui uma análise breve de porque eu posso estar errado em falar tanto sobre sexo:

Primeiro, pode ser attention-whore-ismo. É tipo alcoolismo, mas o que você precisa ingerir com frequência é o olhar do outro. Se o outro te olha com enfado, você não percebe, embriagado com a atençãozinha que recebeu. A ressaca costuma vir quando você lembra do que fez no dia seguinte, tipo soprar as velas do bolo de aniversário de uma criança de seis anos, em um excesso de ousadia.

Se bem que, pra quem já está nesse nível, não há mais nem essa reflexão, e a manhã seguinte é passada gritando com algum vizinho que reclamou da música alta às seis da manhã.

Em minha defesa, não acho que seja esse o meu caso, porque falar de sexo não chama mais atenção nenhuma, a não ser que você seja um aluno de quinta-série gritando "xoxota!" no meio da aula. No círculo de amigos que eu frequento, eu chamaria mais atenção enchendo a cara e falando "EU LEIO NIETSXGZE!".

Não que meus comentários sobre sexo sejam equivalentes a gritar "XOXOTA!" - costumam ser menos elegantes.

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Segundo, pode ser deslumbre. Bem possível, já que eu fui criado numa religião tensíssima quanto a sexo e posso estar tentando recuperar o tempo perdido para falar de sexo o tempo todo.

"Esse peixe está delicioso!", alguém fala. "HIHIHI CURTE BACALHAU, NÉ!!!", eu respondo.

Pode ser isso, mas já faz um bom tempo que eu não sou religioso - e mesmo quando era, na adolescência, me lembro bem de bater uma punheta ou outra no banheiro da igreja. Não, não deve ser compensação pelo tempo de repressão. Nunca me deixei ser tão reprimido assim.

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Se a resposta não está em mim, vale considerar a possibilidade do problema estar no outro, que reclama. Vamos ver o que pode ser:

1 - Desconforto. Claro, se o outro reclama é porque alguma coisa o incomoda. As pessoas que reclamam de eu ser muito sexual quase sempre são pessoas mais fechadas, e que me procuram em particular pra conversar sobre seus problemas na cama.

Aí, quando eu falo sobre alguma coisa sexual sem exigir privacidade, isso incomoda. Isso quando não é um amigo hétero que não se incomoda em ter um amigo gay, mas não suporta ouvir um comentário sexualizado dele. Sim, pode ser isso.

2 - Maturidade, só que não. O roteiro é o seguinte, e deve ser seguido à risca: você não pensa sobre sexo quando criança, só pensa em sexo quando adolescente, e depois que vira adulto não toca mais no assunto. O argumento é de que quem faz sexo não precisa falar sobre ele. Quem fala, não faz.

O mais curioso é que quem pensa assim não precisa de mais de dois copos de cerveja pra desatar a falar putaria. Provavelmente precisa beber pra conseguir transar, também. A relação entre fazer e falar não existe.

Ou você diz que sua vizinha que passa o dia inteiro trocando receitas não sabe cozinhar? Quem faz sexo com saúde sabe falar, e fala, sobre sexo. Não falar é se render ao que foi ensinado e é manter o sexo na caixinha dos tabus - e a gente já sabe o tipo de merda que isso causa.

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Mas provavelmente a resposta não está cem por cento em nenhum dos lados.

Todos nós estamos sob o mesmo guarda-chuva de pressão na vida. Somos pressionados a ter o melhor emprego, o corpo mais bonito, o sorriso mais branco e a vida sexual mais intensa possível.

Como não podemos disfarçar as crises financeiras nem os quilos a mais na balança, a vida sexual passa a ser a única coisa que podemos esconder. Sempre vamos ter a opção de não falar a respeito, ou de mentir a respeito.

Quando uma pessoa saudável fala sobre sexo, não precisa fingir que tudo é maravilhoso - assim como um bom cozinheiro costuma assumir que já errou uma receita ou outra.

Falar da vida sexual sem se vangloriar e sem se esconder, com direito a tratar dos gozos e falhas de cada dia, é romper com a ideia de que esse lado da vida deve ser perfeito. É lembrar que nós somos humanos, e que mesmo sem o corpo perfeito e o melhor emprego, todos fodemos.

E se não pudermos falar que fodemos, estamos fodidos.

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