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Mas você não sai?

É muito constrangedor quando alguém me pergunta se eu tenho o hábito de sair.

Como assim sair? Eu saio de casa. Eu não sou um eremita, eu não tenho uma horta na minha casa que me permita viver do que eu mesmo cultivo. Se eu tivesse, provavelmente eu não sairia (a não ser que não desse pra pagar a conta da internet pelo site do banco).

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Mas não é como se eu ficasse em casa o tempo todo. Eu saio de casa. Eu encontro pessoas. Eu faço cursos. Mas não é disso que a pessoa está falando. Se eu respondo que eu saio, sei lá, para praticar montanhismo, a pessoa geralmente me corrige:

"Não, não. Eu digo sair sair, sabe?"

"Como?"

"Tipo, sair à noite?"

Entendi.

Bom, o supermercado aqui perto de casa é 24 horas, e às vezes eu tenho uma vontade súbita de comer uma Trakinas de morango, então a resposta seria... sim?

Não, não seria.

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Isso quando a pergunta não é ainda mais confiante:

"Você sai pra onde?"

A pessoa parte da absoluta certeza de que meus fins de semana são gastos em alguma boate qualquer. E, sinceramente, eu costumava ficar chateado com isso. Eu até me justificava:

"Pois é, né? Sei lá, faculdade e tal. Não dá muito tempo."

Ou, quando eu estava mais sincero:

"Ah, não curto tanto sair pra boate. Sou mais um barzinho..."

O que não é uma resposta adequada. É como se a pessoa perguntasse se eu costumo ir ao McDonald's e eu respondesse que não, mas que de vez em quando eu frito um pedaço de frango. As duas coisas são vagamente relacionadas à alimentação, mas são coisas profundamente diferentes.

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O pior é quando é um convite:

"Me diz, o que que você acha de ir no Wonka esse sábado?". Ou ainda pior "Ei, vamos pegar um James essa quarta?".

O que eu realmente escuto é:

"Ei, que tal você gastar um quarto do seu salário vestindo sua melhor roupa, pegando um táxi, ficando numa fila por duas horas e meia para entrar numa caixa cheia de gente?"

Quando eu resmungo alguma coisa parecida com um não, a pessoa fala:

"Ai, que antissocial! É bom pra conhecer gente, sabia?"

Ok, então a gente vai até um lugar onde tem muita gente, com o objetivo de conhecer gente. Muito bem, como é que eu vou conhecer alguém se está tudo escuro e a música é tão alta que não me deixa conversar?

Eu sei que provavelmente esses lugares vão estar cheios de pessoas que tem o gosto musical parecido com o meu, que tem coisas interessantes a dizer e são agradáveis de se olhar. Mas que preguiça isso me dá!

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"Ah, é mais pra beber e se soltar... Ouvir música, dançar!"

Uma boate não é a melhor escolha para qualquer uma das alternativas. Você bebe cerveja por nove reais a garrafinha, tentando dançar e dividir o mesmo metro quadrado com seis outras pessoas ao mesmo tempo, enquanto se esforça para parecer bonito durante o exercício.

Se uma banda estiver presente a experiência se justifica, mas você faz isso pra escutar uma gravação? Que você pode escutar no conforto do seu sofá?  Que você baixar pela internet e ouvir dançando só de cueca, sem ninguém te julgar se você faz o passo do elefantinho ou solta um pum?

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Repito, isso não quer dizer que eu não tenha amigos.

Por incrível que pareça, com o tempo você tem a sorte de encontrar pessoas que gostam da mesma coisa que você. Que também prefiram pagar menos na cerveja e escutarem a música que bem entendem enquanto conversam num volume aceitável sobre coisas que te interessam.

E aí, de vez em quando, vocês vão olhar uns pros outros e falar "Ei, vamos na *baladinha da moda da semana*". Vão concordar. Vão sair todos juntos, vão se divertir sem poder dançar nem conversar.

E depois vão se encontrar no dia seguinte e falar "Pô, amanhã a gente faz um churrasco, que tal?"

Você se sente menos alienígena - e nem precisou pagar ingresso pra entrar.

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