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Caminhando

Eu tinha quatorze anos quando o tédio de ficar em casa ficou maior que o prazer de não sair do sofá.

Eu não tinha nada para fazer, a internet ainda era discada e eu não tinha saco pra essas coisas. Solução: dar uma volta na quadra.

Pode parecer uma daquelas mentiras que o Globo Repórter quer que você acredite (comer vegetais faz bem, é possível ser feliz na terceira idade, é prazeroso estar em contato com a natureza), mas a tal da endorfina realmente vai parar no sangue depois de uma caminhadinha.

Terminar uma caminhada causa um prazer indescritível, ainda mais se aliado ao consumo de uma barra de chocolate.

Em pouco tempo, fugir de casa pra caminhar virou um hábito.

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Erik Satie, o compositor, chegava a caminhar trinta quilômetros por dia. Foi assim que ele aprimorou seu senso de ritmo e de variações sobre temas repetitivos.

A Fiona Apple precisou fazer tratamento no joelho depois de gravar seu último álbum, porque ela passava quatro horas por dia subindo e descendo um morro perto de onde morava pra fazer fluir a criatividade antes de ir pro estúdio.

Tchaikovsky, Kant, Mahler, os gênios adoram fazer caminhadas. Era parte do que os tornava tão sensíveis e inovadores.

"Mas Flávio," você pode falar, "você adora fazer caminhadas e não é nem um pouco genial".

Verdade. Mas é porque essa gente toda não tinha um mp3 player no último volume enfiado nos ouvidos o tempo todo. Provavelmente essa genialidade toda vai chegar em mim daqui a três ou quatro anos, quando eu finalmente ficar surdo.

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Posso não ter virado um artista genial com as minhas caminhadas, mas decorei todas as músicas do último disco da Kylie Minogue em menos de um dia. Quero ver o Tchaikovsky fazer isso.

Aliás, a natureza é muito sábia. Ela sabe como é importante para um homem escutar a voz feminina, e não nem que os gays ficassem sem isso.

Alguma coisa evoluiu diferente na audição dos homens gays, e se nós não vamos casar com uma mulher para escutá-la reclamar sobre tudo, é bem provável que gastemos metade do nosso salário em discos em que mulheres (de preferência, loiras que cantam sem calça) cantam estridente, gritam e reclamam da vida.

Desde que dê pra dançar ao mesmo tempo, a gente topa.

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Essa história de fazer caminhadas combina muito com o fator pobreza que assola a minha vida.

Ter resistência para caminhar bastante sem cansar (e tolerância para não se importar de chegar suado em todos os compromissos) torna mais fácil a vida de quem não tem carro e quer economizar na passagem de ônibus.

Mas nem tudo é tão econômico assim. Um vez, meu namorado me deu de presente um tênis de quatrocentos reais (uma fortuna, ao meu ver), e ficou indignado quando viu que o tênis tinha se destroçado completamente em menos de seis meses.

"O que você fez com ele, meu Deus?"

"Caminhei, uai."

Ele, que vai de carro até a padaria na esquina da casa dele, não quis acreditar.

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Essa semana, bati meu recorde. Entre um compromisso e outro, o tempo todo à pé, caminhei dezesseis quilômetros em um dia.

Você sabia que isso é suficiente para dar dar duas voltas completas no planeta Terra?

Tá, pode não ser verdade. Mas a sola do meu tênis tá toda ferrada, minhas pernas estão doendo e eu quero me sentir bem a respeito disso.

Ainda bem que existe a endorfina.

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