Pular para o conteúdo principal

Piorar faz bem

"Moço, tem dinheiro pra eu comprar um cachorro-quente?"

Eu não ia ajudar, mas meu amigo tirou três reais do bolso e entregou.

"Mas moço, o cachorro-quente é cinco!", o mendigo respondeu, indignado, como se reclamasse do atendimento em um restaurante francês.

--

Gente folgada existe nesse mundo por um motivo, que é ensinar quem quer ser bonzinho a não ser tão besta.

Os folgados são um instrumento de evolução. O jeito abusado é um dom que ganharam de Deus para evoluir a humanidade, despamonhizando as pessoas que passam por eles.

--

Outro dia, sentei pra comer perto de um grupo de rapazes. Eles conversavam daquele jeito que os homens fazem para reclamar sem parecer fracos, falando dos próprios erros como se fossem a coisa mais engraçada do mundo.

Um deles começou uma história sobre o tio e o primo, que apareciam na casa dele de surpresa, chorando as pitangas de como a vida andava dura. 

"Era assim toda semana. Eu me compadecia, levava os dois ao mercado e depois pagava a conta. Era família, né? Tinha que ajudar."

Depois de um tempo, o tio melhorou de vida. O rapaz ria pra disfarçar a mágoa:

"Pergunta se hoje ele me telefona? Se ele apareceu lá em casa de novo? Chega festa de família e ele nem me olha na cara!"

Pelo menos ele parecia ter aprendido a lição:

"Hoje eu não ajudo mais ninguém só porque é da família. Só se eu tiver certeza que a pessoa precisa e presta."

A hora que ele mais ria era quando lembrava da dor no bolso:

"Eu gastava setenta reais com eles no mercado. Setenta reais!"

--

Uma coisa que acontece com quase todo mundo que começa uma terapia é ouvir dos outros algo parecido com "Que terapia é essa? Você tá piorando em vez de melhorar!", normalmente depois de ter limitado os palpites de alguém sobre a própria vida.

A tradução correta dessa frase é "Por que diabos você não faz mais o que eu quero que você faça?".

Como você ousa não satisfazer a expectativa do outro? Só sendo uma péssima pessoa, mesmo.

--

Às vezes, a melhor coisa que uma pessoa pode fazer é piorar. Parar de gastar energia querendo salvar a vida alheia e empregar esse esforço todo em cuidar melhor de si mesmo.

É um grande prazer descobrir que não tem nada de errado em ser egoísta. Aliás, quem inventou que egoísmo é defeito era um folgado.

Como a vida melhora quando a gente piora um pouco!

--

Quem faz de tudo pelo outro, o faz por vaidade. Faz sabendo que o outro vai amar uma pessoa útil.

É necessário quebrar a cara uma vez ou doze para aprender, mas se a gente se permite não ser tão bom quanto gostaria, descobre um tesouro.

Não se importar em ser mal visto, não se preocupar com o problema do outro só porque acha que deveria, tudo isso libera um tempo gigante para ser feliz.

--

Não que ajudar os outros seja errado. 

É que só depois de parar de ajudar por obrigação se aprende a perceber quando a vontade de ajudar alguém é genuína.

Aí você ajuda só porque sua alma quis, sem esperar nada em troca. 

Só assim se ajuda de verdade.

-- 

Dizendo não a um folgado, você passa a ser o instrumento que diz pra ele parar de coitadismo e cuidar da própria vida sozinho. Você é o objeto de evolução. Você é uma pessoa boa.

E só conseguiu isso deixando de ser bonzinho.

Comentários

  1. "Teoria do Beneficio"
    Toda ação generosa, no fundo no fundo, é feita para a pessoa se sentir bem com sigo mesma, e até, na maioria das vezes, faz a ação pretendendo receber algo em troca.
    "o prazer do beneficiador é sempre maior que o do beneficiado”

    ResponderExcluir
  2. Anônimo11:32 PM

    Falou tudo.

    ResponderExcluir

Postar um comentário

Postagens mais visitadas deste blog

Enganei o bobo na casca do ovo

Quem disse que desenho animado não é ciência?  Bem, ninguém disse isso, mas eu me surpreendi quando fiquei sabendo que um dos meus clichês preferidos de desenho infantil tem a ver com um prêmio Nobel.  Lembra quando o Tom, do Tom e Jerry - ou qualquer outro desenho da época - via um ovo chocar e o pintinho que saía de dentro o chamava de mamãe, e o seguia por todo lugar? Isso aconteceu com um cientista chamado Konrad Lorenz, que estudava biologia, psicologia e o que mais tivesse pela frente, e que um dia, tal como o Tom, viu chocar um ovinho de ganso. Bem, o histórico de Lorenz não era muito bom (com alguns estudos voltados a descobrir se "híbridos germânico-polacos" tinham a mesma capacidade de trabalho que ditos "alemães puros", aquele nazisminho básico). Ainda assim, o ganso lhe deu uma oportunidade de ressignificar sua obra, porque assim que nasceu, começou a seguir o cientista alemão. O cientista não tinha penas, não tinha os dedos dos pés grudados (que eu saib...

Dando sopa

Às vezes me sinto a pessoa mais influenciável do mundo. Estava voltando da faculdade e tentando ler um livro enquanto o ônibus chacoalhava de lá para cá. Na história, pra demonstrar a pobreza do personagem, o autor fez questão de fazer constar que ele só come sopa, em todas as refeições. Uma das cenas descrevia com riqueza de detalhes a sopa que o rapaz comia: rala, com poucos pedaços de frango, arroz do dia anterior e algumas batatas picadinhas. A intenção era despertar piedade do personagem. O efeito foi o de me deixar morrendo de vontade de comer sopa. -- Em pleno verão, bater na porta dos vizinhos mais amigáveis perguntando se eles tinham sopa não era uma opção - e sim, se fosse inverno eu teria cara-de-pau suficiente de fazer isso.  A solução foi caminhar até um hipermercado perto de casa, o único lugar aberto naquele horário. Talvez eu achasse sopa em lata por lá. -- Pelo menos quinhentas pessoas se amontoavam na entrada do supermercado. Pessoa...

Zombeteiro

Nada é mais cafona em pleno ano de 2025 do que querer um sentido pra vida. Eu não devia falar isso em voz alta, porque meu emprego literalmente é fazer as pessoas acreditarem que algum sentido deve existir e aí passar duzentas sessões correndo atrás disso.  É uma profissão que, para os ingênuos, é muito bonita e faz muito sentido.  Bobagem. Eu gosto de ser terapeuta e acredito de verdade que algum bem eu devo fazer pros meus pacientes, mas esperar sentido disso? Cafona.  O sentido de qualquer trabalho é sair do trabalho e não fazer nada. -- A vida mais sem sentido talvez seja a com mais sentido: ficar aqui por um tempo, trabalhar um tanto, comer algumas coisas gostosas e ocasionalmente passar a mão num gato. Depois, pendurar as chuteiras, sem culpa nenhuma, e dormir pra sempre.  É o verdadeiro paraíso.  Nunca pensei "que ódio, vou tirar uma sonequinha depois do almoço" ou acordei pensando "que experiência horrível essa de me desacoplar da vida por uns minutinhos...