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Faculdade pra quê?

Meu irmão nunca foi pra frente numa faculdade. Começava um curso, fazia um semestre, achava tudo um saco e trancava a matrícula. Dizia que aquilo não era o que queria da vida, mesmo, e acabava escolhendo outra faculdade pra fazer.

Um semestre depois, tudo era um saco novamente.

Ele comentou comigo, essa semana, que quem sabe agora, um pouco mais perto dos trinta do que dos vinte, fosse a hora de fazer uma faculdade.

Vejam bem: ele já tem uma empresa, tem uma série de capacidades que conseguiram seu sustento até agora, e não tem a intenção de pedir um emprego para ninguém tão cedo.

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Talvez eu seja resistente demais a essas coisas.

Desde adolescente, toda vez que a leitura de um livro era exigida para alguma avaliação, eu corria atrás de algum resumo, uma ideia geral a respeito ou o relato de um colega que se deu ao trabalho de ler. Sempre consegui nota suficiente sem ter lido nada.

Depois das avaliações, passava na biblioteca, emprestava o livro e lia com o maior gosto do mundo.

No meu ritmo, sem a obrigação de ser avaliado depois.

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Algumas das pessoas mais felizes que eu conheço nunca atuaram na área de formação. Estudaram, arranjaram um diploma qualquer, enfiaram o diploma rabo adentro e foram parar no primeiro emprego que surgiu.

Tristes adolescentes, que pensam que estão tomando uma decisão importante quando prestam vestibular para algum curso. Sofrem tentando decidir o que vão ser na vida, sem perceber a irrelevância disso depois de um tempo.

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A questão é: dezenas de pedagogos já provaram por amaisbê que essa história de sentar pessoas numa fileira e derramar conteúdo sobre elas não é a melhor maneira de adquirir conhecimento. É só uma maneira barata e fácil de deixar crianças amontoadas e quietas.

E onde estão os estudantes de doutorados em pedagogia? Amontoados e quietos em sala de aula.

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Me vi num dilema parecido com o do meu irmão quando comecei a considerar fazer uma pós-graduação ou um mestrado.

Ter feito faculdade me ensinou uma coisa: faculdades não valem nada.

Claro, você tem experiências interessantes, conhece pessoas com desejos afins e tem um pouco mais de facilidade para descobrir o que é interessante saber ao trabalhar na área que escolheu, mas é basicamente isso.

Num mundo em que todo o conhecimento já produzido está a um clique de distância, em que você pode ver os maiores estudiosos do planeta falando eles mesmos sobre suas descobertas, a sala de aula convencional é uma solução no mínimo preguiçosa.

Por quê depender de um currículo selecionado por uma faculdade tendo em vista o maior lucro possível da instituição se posso basear meus estudos no meu próprio instinto, curiosidade e tesão?

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Talvez o que mais me incomode nesse assunto seja a hierarquia que esse ambiente acadêmico sugere. Não é por sede de conhecimento que meu irmão se sente pressionado a entrar numa faculdade, nem eu a fazer um mestrado.

É pela impressão de que quem tem um título acadêmico tem mais poder. Como se possuir uma faculdade fosse garantia de conhecimento.

Não é.

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Fazer faculdade tem, pelo menos, o lado bom de você poder ir para uma cela especial quando for preso.

O problema é se ela aprisiona o seu desejo de aprender.

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