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Agressão ao Palmito

Parece que durante toda a minha vida minha situação de moradia foi a mesma. Por mais que eu mudasse de endereço, sempre morei entre um bairro muito rico e outro muito pobre.

Ali no meio, na classe média, onde sempre pertenci.

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Me mudei de novo recentemente. Agora vivo entre o bairro mais rico de Curitiba e uma parte não muito bacana do centro (que não é nenhuma favela, pelo visto eu devo ter subido de vida quando aluguei um quarto na casa de uma amiga).

O que significa que, para garantir minhas andanças diárias, acabo passando em frente de alguns pontos grã-finos da cidade. Não é de propósito, é que quando não quero andar pelo centro fuleiro, esse é o único lugar que eu tenho pra passear por perto.

Com o tempo acabei me acostumando em ser a única pessoa com calça de moletom e fone de ouvido passando em frente aos restaurantes chiques da cidade. A rua é meu quintal, quero ver quem me impede de passar por ela.

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Só que, mesmo assim, eu tenho dias de querer me arrumar mais um pouco pra não receber tantos olhares assim enquanto caminho.

E o último domingo era um deles. Botei uma blusa bonita de fio, calça jeans e um tênis mais limpinho pra dar minha caminhada diária (sim, calça jeans e tênis limpo são meu conceito de me arrumar, me julgue).

Aí, enquanto passava em frente ao shopping mais caro da cidade, sob luzes de vitrines da Prada e Louis Vuitton, dois meninos de chinelo passam por mim:

"Esse aí é do dinheiro, hein? Filhinho de papai, queria ter a tua vida, viu? Metidinho!"

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Então é esse o preconceito que os brancos de classe média dizem sofrer tanto? "Sua vida é mais fácil!"?

Meu comentário sobre essa "agressão": FOI ÓTIMO!

Sério, todo mundo devia experimentar ser discriminado por ter a vida mais fácil, um dia. Ser xingado de "Seu rico!".

Dá uma alegria imensa.

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De verdade: mesmo eu não sendo o playboyzinho que eles imaginavam que eu fosse, minha vida é mais fácil sim.

Sempre que alguém defende cotas raciais ou coisa parecida, alguém solta o argumento "Mas e o branco que nasce pobre, como faz? Fica sem benefício?".

Olha, com a minha carteirinha de Branco que Nasce Pobre™ em mãos, devo dizer que a vida não foi tão terrível assim.

Mesmo estudando em escola pública e tendo que ralar o cu na ostra pra ganhar dinheiro, a percepção das pessoas sobre sempre foi mais generosa. Minha cara de polaco nerd com certeza me fez passar por mais entrevistas de emprego do que se eu fosse um negro nerd.

A cara branca do meu pai provavelmente fez com que ele consertasse mais televisões do que se ostentasse um rosto negro ou uma cadeira de rodas.

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Por isso quando alguém como o Danilo Gentili fala que pode fazer piadas sobre negros porque é chamado de "Palmito", é porque está confundindo bastante as coisas.

Um pouquinho de empatia faz bem. Quando a gente se coloca sinceramente no lugar do próximo, corre o risco de perceber que as proximidades não sejam tantas assim.

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Por piedade divina ou crueldade humana, minha vida de branco foi mais fácil - mesmo com situações econômicas relativamente similares aos garotos negros que estudavam comigo.


E vou reclamar disso? Vou reclamar de quando dão benefícios pra quem não teve os mesmos benefícios que eu?

Prefiro não. Vai que na próxima encarnação eu venho mulher e negra?

Não tenho cacife pra viver no modo hard. Fica meu aplauso pra quem tem.

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