Pular para o conteúdo principal

Um ato de fé

Quando meus dentes de leite estavam caindo, senti fortemente que era hora de botar um ponto final naquela vergonha. Na minha cabeça de criança, dentes caindo eram sinal de falta de higiene, e eu não ia mais deixar aquilo acontecer.

Um dos meus dentes da frente estava ficando bambo, e eu não ia arriscar ficar banguela e ter de ouvir piadas de "E essa janelinha aberta?" pra sempre.

Escovei aquele dente por horas a fio, com a gana de quem evitava um desastre.

--

Já estava difícil respirar por causa do cansaço da caminhada, e ficou pior quando senti aquele cheiro terrível. No meio da calçada, dois imensos caminhões limpa-fossa.

Respirando apenas o necessário para não cair morto, atravessei a rua e reparei que, entre um caminhão e outro, um mendigo estava sentado no meio fio. Como ele aguentou aquele cheiro de fossa, não sei. Talvez ele mesmo não estivesse com o cheiro tão agradável assim. Talvez ali fosse um lugar onde dava pra se distrair do cheiro do próprio sovaco.

Mas estereótipos caem mais rápido do que dentes de leite, e eu me surpreendi com o que vi: sentado no meio fio, segurando uma garrafa velha cheia de água, o mendigo escovava os dentes.

--

Lembro bem de quando não existia essa variedade toda de marcas de pasta de dente. Com sorte, você tinha duas opções, e escolhia pelo preço. Qualquer uma que você comprasse seria igual: branca, com textura de graxa de sapato, e um aroma artificial de hortelã que deixava sua boca com gosto de cano de PVC.

De vez em quando você esfregava aquilo nos dentes, e isso adiaria em uma ou duas décadas a inevitável compra de uma dentadura.

--

Dos atos de higiene, escovar os dentes é um dos mais complexos. Requer um instrumento próprio, um produto específico, um gargarejo que movimenta mais músculos do que correr uma maratona, e uma técnica toda especial de movimento das mãos.

Qualquer criança consegue lavar as mãos. Tomar banho não exige nenhuma ciência. Mas escovar os dentes? Não tão simples! Você precisa ensinar as crianças desde a pré-escola. Você precisa segurar na mãozinha delas e dizer "de cima pra baixo, de cima pra baixo!". Você precisa de um adulto vestido de escova de dentes, talvez cantando uma musiquinha.

Não é um trabalho qualquer.

--

E ninguém escova os dentes sem ter alguma ambição.

A gente escova os dentes porque sabe que pode encontrar alguém que não queiramos assustar com o cheiro de podre que vem das nossas tripas. A gente escova os dentes porque sabe que pode encontrar alguém que, por um surto de afeição, queira inspecionar nossa boca usando a própria língua.

A gente escova os dentes porque, no mínimo, tem a esperança de que daqui a dez anos a gente vai ter motivo pra sorrir, e quer garantir que vai ter dentes pra isso.

Por isso que, pelo menos comigo, o primeiro sinal de que eu tô entrando em uma depressão é quando eu não consigo levantar da cama para escovar os dentes antes de dormir.

É um sinal de que as coisas não estão bem. É um sinal de que eu estou desistindo de tudo.

--

Foi isso que me deixou impressionado com o mendigo. Ele podia estar - literalmente - na sarjeta, mas estava escovando os dentes. Ele podia estar - quase literalmente - na fossa, mas não tinha desistido de sorrir.

Talvez ele soubesse que as coisas podiam melhorar a qualquer momento. Talvez ele soubesse que, na sua faixa de renda, ter dor de dente e precisar consultar um dentista fosse muito inviável. Talvez ele fosse encontrar o amor da sua vida.

Só sei que ele não tinha desistido. Alguma ambição ele tinha. Tinha sim.

--

Das coisas que já me deprimiram a ponto de não querer nem escovar os dentes, nenhuma delas foi tão preocupante quanto estar na rua e não ter onde dormir. Por muito menos do que a situação do mendigo, eu já teria me abandonado.

Não consigo imaginar de onde vinha essa força dele. Quem sabe a única coisa que o separasse da sensação de ter perdido tudo completamente fosse a sua escova de dentes.

O mendigo higiênico e eu criança tínhamos algo em comum. Estávamos, os dois, fazendo a mesma coisa: escovando um dente bambo, sem muita ideia de como o futuro seria, na expectativa de adiar uma queda inevitável. Apoiados na esperança de manter um sorriso íntegro.

Um ato de fé, eu diria.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Enganei o bobo na casca do ovo

Quem disse que desenho animado não é ciência?  Bem, ninguém disse isso, mas eu me surpreendi quando fiquei sabendo que um dos meus clichês preferidos de desenho infantil tem a ver com um prêmio Nobel.  Lembra quando o Tom, do Tom e Jerry - ou qualquer outro desenho da época - via um ovo chocar e o pintinho que saía de dentro o chamava de mamãe, e o seguia por todo lugar? Isso aconteceu com um cientista chamado Konrad Lorenz, que estudava biologia, psicologia e o que mais tivesse pela frente, e que um dia, tal como o Tom, viu chocar um ovinho de ganso. Bem, o histórico de Lorenz não era muito bom (com alguns estudos voltados a descobrir se "híbridos germânico-polacos" tinham a mesma capacidade de trabalho que ditos "alemães puros", aquele nazisminho básico). Ainda assim, o ganso lhe deu uma oportunidade de ressignificar sua obra, porque assim que nasceu, começou a seguir o cientista alemão. O cientista não tinha penas, não tinha os dedos dos pés grudados (que eu saib...

Dando sopa

Às vezes me sinto a pessoa mais influenciável do mundo. Estava voltando da faculdade e tentando ler um livro enquanto o ônibus chacoalhava de lá para cá. Na história, pra demonstrar a pobreza do personagem, o autor fez questão de fazer constar que ele só come sopa, em todas as refeições. Uma das cenas descrevia com riqueza de detalhes a sopa que o rapaz comia: rala, com poucos pedaços de frango, arroz do dia anterior e algumas batatas picadinhas. A intenção era despertar piedade do personagem. O efeito foi o de me deixar morrendo de vontade de comer sopa. -- Em pleno verão, bater na porta dos vizinhos mais amigáveis perguntando se eles tinham sopa não era uma opção - e sim, se fosse inverno eu teria cara-de-pau suficiente de fazer isso.  A solução foi caminhar até um hipermercado perto de casa, o único lugar aberto naquele horário. Talvez eu achasse sopa em lata por lá. -- Pelo menos quinhentas pessoas se amontoavam na entrada do supermercado. Pessoa...

Zombeteiro

Nada é mais cafona em pleno ano de 2025 do que querer um sentido pra vida. Eu não devia falar isso em voz alta, porque meu emprego literalmente é fazer as pessoas acreditarem que algum sentido deve existir e aí passar duzentas sessões correndo atrás disso.  É uma profissão que, para os ingênuos, é muito bonita e faz muito sentido.  Bobagem. Eu gosto de ser terapeuta e acredito de verdade que algum bem eu devo fazer pros meus pacientes, mas esperar sentido disso? Cafona.  O sentido de qualquer trabalho é sair do trabalho e não fazer nada. -- A vida mais sem sentido talvez seja a com mais sentido: ficar aqui por um tempo, trabalhar um tanto, comer algumas coisas gostosas e ocasionalmente passar a mão num gato. Depois, pendurar as chuteiras, sem culpa nenhuma, e dormir pra sempre.  É o verdadeiro paraíso.  Nunca pensei "que ódio, vou tirar uma sonequinha depois do almoço" ou acordei pensando "que experiência horrível essa de me desacoplar da vida por uns minutinhos...