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Vovó mudou de ideia

"Burro é aquele que não aprende quando erra. Inteligente é aquele que aprende com o próprio erro. Esperto é aquele que aprende com o erro dos outros.", minha mãe dizia, provavelmente citando errado algum filósofo.

"Quantos anos você viveu?", ela também dizia, na hora da bronca. "Não importa o quanto você ache que está certo, eu sempre vou ter trinta anos a mais que você. Nesses trinta anos, tenho certeza que eu aprendi coisas que você não sabe."

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Pois bem. Fui crescendo e tentando ouvir a voz da experiência. 

Por isso, quando estava em dúvida entre ficar em Curitiba e tentar a carreira de psicólogo ou voltar a morar com meus pais, procurei a minha avó, uma professora aposentada - e afiadíssima - de 86 anos. 

Abri meu coração com ela. Falei de como a grana estava curta, como a vontade de trabalhar na minha profissão era grande e como eu teria mais oportunidades aqui do que na cidade dos meus pais, mas que não estava conseguindo pagar o aluguel e as coisas estavam difíceis. 

Falei que seria difícil voltar a morar com meus pais, que eu sentia que minha vida era em Curitiba, e não queria abandonar meus amigos daqui.

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No fim das contas, a minha pergunta era "Volto pra casa dos meus pais ou insisto mais um pouco?"

"Meu filho", disse ela, "Amigos vem e vão. Sua família é que está mesmo ao seu lado. Seu pai está muito sozinho no trabalho dele, faria muito bem ele ter companhia."

Não era bem o que eu queria ouvir.  No fundo, minha decisão já estava tomada, e o conselho dela acabou me deixando com peso na consciência.

Minha vó era a voz da sabedoria, afinal. Ela devia saber o que era melhor, e provavelmente essa decisão de ficar longe da família ia acabar mordendo a minha bunda.

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Enquanto eu decidia ficar na mesma cidade, minha avó ia para outra.

Sem conseguir mais ficar sozinha na casa onde morava, e para ficar mais perto da família, acabou se mudando para uma casa mais próxima à casa dos meus pais. 

Na visita seguinte, minha avó era só reclamação:

"Aqui não tem as minhas velhas, meu filho. Não tem com quem jogar baralho. Tô abandonada aqui."

Eu tentei usar os argumentos que ela usou comigo: família é bom, é importante ter por perto.

"Mas filho, a vida não é nada sem amigos..."

Acho que, mesmo aos (ou principalmente aos) 86 anos, você pode mudar de ideia.

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Pouco tempo atrás, o sogro de uma das minhas tias estava com câncer. Faleceu rapidamente após ser internado, consumido demais pela doença.

Como é comum em cidade pequena, as fofocas correram depressa. Inventaram uma fofoca que tinham dado para ele uma tal de "injeção da morte sem dor", e isso foi parar nos ouvidos da minha avó. 

Alguns dias depois, minha tia levou minha avó para tomar injeção. 

Na hora de levar a agulhada, minha avó teve um ataque de ansiedade, desmaiou e acabou sendo internada também.

Quando acordou, chegou à conclusão lógica: estavam tentando dar a tal da morte sem dor para ela.

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Desde então, minha avó decretou uma nova regra: antes de ela comer qualquer coisa, alguém precisa provar a comida na frente dela.

Por prevenção. Assim, ninguém vai dar nada pra ela morrer, não. 

Acho que, agora, ela sente a mesma coisa que eu sentia antes de sair da casa dos meus pais: família é ótimo, mas perto demais pode acabar te matando.

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