Pular para o conteúdo principal

Em defesa do carinho

Pra mim, a emoção mais importante que um ser humano pode ter é o carinho.

Carinho é diferente de amor: Amor você pode sentir e esconder por trás de uma mágoa. 
Carinho é inescondível. Impossível olhar para alguém com carinho sem ser denunciado pelo brilho nos olhos.

Amar todo mundo ama, mas isso só tem valor quando o amor ganha movimento em forma de carinho.

--

É o carinho que permite que a gente siga em gente quando levamos uma pancada da vida. 
É o carinho que nos derrete quando as circunstâncias querem nos petrificar. 

É do carinho que a gente sente falta quando a tentativa de amor não sai da forma que a gente esperava. 

--

Cada um tem seu jeito de demonstrar afeto: tem os que deixam um bilhete carinhoso no espelho, os que cozinham para um batalhão mesmo pra receber uma só visita, os que trabalham duro pra não deixar nada faltar no fim do mês e os que se fazem de fortes, fingindo não precisar de carinho pra não criar incômodo pra ninguém.

Qualquer que seja a maneira de demonstrar, o carinho é o air-bag das relações humanas. É o carinho que te faz dizer "tudo bem, acontece" pra uma criança que quebrou algo seu, em vez de ceder ao instinto e esganar sorrindo. 

--

Lanço agora o desafio de demonstrar carinho para quem é mais difícil.
Pro colega que você aprecia o jeito de trabalhar, ainda que ele tenha opiniões políticas que te dão ânsia de vômito.
Pra sua vizinha que você precisa fugir pra não ficar horas escutando todos os problemas, mas que veio te visitar quando você ficou doente.
Pra pessoa na rua que te perguntou se tá tudo bem quando você tropeçou e caiu de joelho.

Não importa o jeito de demonstrar: cada demonstração de carinho vai te acender uma coisa gostosa no peito. Mesmo que não entendam nada do que você fez, esse carinho vai te iluminar por dentro e o prazer é tudo seu.

--

Eu realmente acho que o problema no mundo não é falta de amor.
Dá pra ver isso na nossa sala de estar: é claro que você ama aquele parente complicado, mesmo ele  sendo tão difícil de conviver.

Demonstrar carinho que é o difícil.
Como conseguir ser carinhoso com quem já machucou a gente?

Talvez o único jeito seja lembrando que a gente é muito pequeno. Que nós somos todos crianças desastradas que de vez em quando quebram o que não deviam.
E que, crianças que somos, precisamos tanto do colo pra aprender quanto da disciplina.

--

Carinho é o açúcar da vida. Fiquemos diabéticos. 

Comentários

  1. Flávio , vc trocou a apalavre frente ou GENTE
    NESTA FRASE --É o carinho que permite que a gente siga em gente

    ResponderExcluir
  2. "os que se fazem de fortes, fingindo não precisar de carinho pra não criar incômodo pra ninguém."

    Parabéns, gostei da letra maior neste texto, fica mais fácil a leitura!

    ResponderExcluir

Postar um comentário

Postagens mais visitadas deste blog

Enganei o bobo na casca do ovo

Quem disse que desenho animado não é ciência?  Bem, ninguém disse isso, mas eu me surpreendi quando fiquei sabendo que um dos meus clichês preferidos de desenho infantil tem a ver com um prêmio Nobel.  Lembra quando o Tom, do Tom e Jerry - ou qualquer outro desenho da época - via um ovo chocar e o pintinho que saía de dentro o chamava de mamãe, e o seguia por todo lugar? Isso aconteceu com um cientista chamado Konrad Lorenz, que estudava biologia, psicologia e o que mais tivesse pela frente, e que um dia, tal como o Tom, viu chocar um ovinho de ganso. Bem, o histórico de Lorenz não era muito bom (com alguns estudos voltados a descobrir se "híbridos germânico-polacos" tinham a mesma capacidade de trabalho que ditos "alemães puros", aquele nazisminho básico). Ainda assim, o ganso lhe deu uma oportunidade de ressignificar sua obra, porque assim que nasceu, começou a seguir o cientista alemão. O cientista não tinha penas, não tinha os dedos dos pés grudados (que eu saib...

Dando sopa

Às vezes me sinto a pessoa mais influenciável do mundo. Estava voltando da faculdade e tentando ler um livro enquanto o ônibus chacoalhava de lá para cá. Na história, pra demonstrar a pobreza do personagem, o autor fez questão de fazer constar que ele só come sopa, em todas as refeições. Uma das cenas descrevia com riqueza de detalhes a sopa que o rapaz comia: rala, com poucos pedaços de frango, arroz do dia anterior e algumas batatas picadinhas. A intenção era despertar piedade do personagem. O efeito foi o de me deixar morrendo de vontade de comer sopa. -- Em pleno verão, bater na porta dos vizinhos mais amigáveis perguntando se eles tinham sopa não era uma opção - e sim, se fosse inverno eu teria cara-de-pau suficiente de fazer isso.  A solução foi caminhar até um hipermercado perto de casa, o único lugar aberto naquele horário. Talvez eu achasse sopa em lata por lá. -- Pelo menos quinhentas pessoas se amontoavam na entrada do supermercado. Pessoa...

Zombeteiro

Nada é mais cafona em pleno ano de 2025 do que querer um sentido pra vida. Eu não devia falar isso em voz alta, porque meu emprego literalmente é fazer as pessoas acreditarem que algum sentido deve existir e aí passar duzentas sessões correndo atrás disso.  É uma profissão que, para os ingênuos, é muito bonita e faz muito sentido.  Bobagem. Eu gosto de ser terapeuta e acredito de verdade que algum bem eu devo fazer pros meus pacientes, mas esperar sentido disso? Cafona.  O sentido de qualquer trabalho é sair do trabalho e não fazer nada. -- A vida mais sem sentido talvez seja a com mais sentido: ficar aqui por um tempo, trabalhar um tanto, comer algumas coisas gostosas e ocasionalmente passar a mão num gato. Depois, pendurar as chuteiras, sem culpa nenhuma, e dormir pra sempre.  É o verdadeiro paraíso.  Nunca pensei "que ódio, vou tirar uma sonequinha depois do almoço" ou acordei pensando "que experiência horrível essa de me desacoplar da vida por uns minutinhos...