Pular para o conteúdo principal

Fazendo um pouquinho

Amigos, encarem isso como uma bronca. Como uma bronca bem dada, olhando nos olhos de vocês e falando "olha pra mim" quando vocês desviarem o olhar.

O que vocês fazem É BOM.

Você que pinta, que canta, que costura: o que você faz É BOM.

Você pode pintar torto, desafinar e errar o ponto, mas o que você faz É BOM.

--

Por que diabos as pessoas com mais talento são as que mais duvidam de si, e as mais encantadoras as que menos sentem que tem valor?

Não é pra me incluir no grupo dos talentosos e encantadores, mas eu sei o que é se olhar no espelho e se odiar. E não achar que tem nada certo na sua cara, e que nada do que você faz tem valor, e que você é um bosta perto de tanta gente incrível no mundo.

E o mundo é assim mesmo, cheio de gente incrível, talentosa e rica.

E essa gente vai fazer trabalhos melhores que o seu, carreiras mais brilhantes que a sua e parecer mais interessante que você.

E sabem o que isso significa?

Porríssima nenhuma.

Porque ninguém consegue ser perfeito em tudo e todo mundo queria ser melhor em alguma coisa.

E, por incrível que pareça, tem gente nesse planeta que consegue ter inveja de você. De você! E gente que você admira!

Tem gente rezando de joelhos para falar como você fala, agir como você age, costurar como você costura ou ter a coragem que você tem de sair da cama e encarar o dia que você tem.

--

"É, mas eu mostro o que eu faço e ninguém gosta."

Sim, mas tem força maior pra controlar uma pessoa do que fazer ela não se achar boa o suficiente?
Tem coisa que segura mais alguém do que duvidar da própria capacidade de fazer aquilo que ela quer? E nem é a respeito de saber fazer, é sempre sobre "fazer bem o suficiente".

Bem o suficiente pra quem, cazzo?

Tem gente aí que adoraria ficar nos ombros do Michelangelo enquanto ele pintava a Capela Sistina, falando "Pô, cara, esse Deus tá muito saradão!".

Pra manter o seu talento preso no seu cagaço. Pra que eles também não saiam do cagaço deles, e ainda consigam dar risada de quem ousou tentar.

Covardes.

--

Além do mais, todo mundo vai querer uma fatia da sua coragem.

Se o Beethoven saísse mandando mp3 da quinta sinfonia pra cinquenta pessoas pedindo opinião, cinquenta pessoas dariam algum palpite do tipo "Olha, podia ser mais animadinho" ou "Podia ter um dubstep no meio, tá na moda". Só pra se sentirem participantes de uma obra de alguém que realmente teve o trabalho de sentar a bunda numa cadeira e tentar fazer algo bonito.

Chega uma hora em que você precisa acreditar mais na sua opinião do que na do outro.

Você já tem coisa demais pra se preocupar na vida - sua segurança, ter comida na mesa, juntar os cacos do coração que parte de vez em quando, dar comida pro gato. Tanta coisa pra fazer e você vai perder seu tempo com um Zé Roela que pode vir a achar que o seu humilde trabalhinho não está à altura do traseiro fofo dele?

Deixa disso.

--

Mais do que acreditar, você precisa largar o medo de lado e fazer alguma coisa. Qualquer coisa.

Tirar da ideia aquela sua ideia da lojinha virtual. Filmar aquele vlog que você prometeu pra si mesmo que ia fazer mas tem medo do ridículo. Soltar a voz na rodinha de violão.
Usar a saia curta que você ainda não teve coragem. Fazer aquele telefonema.

Sair um pouco da cabeça e dar a você mesmo a chance de existir um pouquinho.

Mesmo que seja um pouquinho bem humilde e que o resultado não seja o que você esperava.

E, se você foi criticado por alguma coisa que fez, se dê os parabéns. Você fez alguma coisa.

Isso já é mais do que muita gente é capaz de fazer.

Comentários

  1. Nossaaaa... Incrível! Te agradeço Flávio por publicar esse texto, me ajudou muito!! Você é demais!

    ResponderExcluir
  2. Muito bom, perfeccionistas subestimam suas capacidades.

    ResponderExcluir

Postar um comentário

Postagens mais visitadas deste blog

Enganei o bobo na casca do ovo

Quem disse que desenho animado não é ciência?  Bem, ninguém disse isso, mas eu me surpreendi quando fiquei sabendo que um dos meus clichês preferidos de desenho infantil tem a ver com um prêmio Nobel.  Lembra quando o Tom, do Tom e Jerry - ou qualquer outro desenho da época - via um ovo chocar e o pintinho que saía de dentro o chamava de mamãe, e o seguia por todo lugar? Isso aconteceu com um cientista chamado Konrad Lorenz, que estudava biologia, psicologia e o que mais tivesse pela frente, e que um dia, tal como o Tom, viu chocar um ovinho de ganso. Bem, o histórico de Lorenz não era muito bom (com alguns estudos voltados a descobrir se "híbridos germânico-polacos" tinham a mesma capacidade de trabalho que ditos "alemães puros", aquele nazisminho básico). Ainda assim, o ganso lhe deu uma oportunidade de ressignificar sua obra, porque assim que nasceu, começou a seguir o cientista alemão. O cientista não tinha penas, não tinha os dedos dos pés grudados (que eu saib...

Dando sopa

Às vezes me sinto a pessoa mais influenciável do mundo. Estava voltando da faculdade e tentando ler um livro enquanto o ônibus chacoalhava de lá para cá. Na história, pra demonstrar a pobreza do personagem, o autor fez questão de fazer constar que ele só come sopa, em todas as refeições. Uma das cenas descrevia com riqueza de detalhes a sopa que o rapaz comia: rala, com poucos pedaços de frango, arroz do dia anterior e algumas batatas picadinhas. A intenção era despertar piedade do personagem. O efeito foi o de me deixar morrendo de vontade de comer sopa. -- Em pleno verão, bater na porta dos vizinhos mais amigáveis perguntando se eles tinham sopa não era uma opção - e sim, se fosse inverno eu teria cara-de-pau suficiente de fazer isso.  A solução foi caminhar até um hipermercado perto de casa, o único lugar aberto naquele horário. Talvez eu achasse sopa em lata por lá. -- Pelo menos quinhentas pessoas se amontoavam na entrada do supermercado. Pessoa...

Zombeteiro

Nada é mais cafona em pleno ano de 2025 do que querer um sentido pra vida. Eu não devia falar isso em voz alta, porque meu emprego literalmente é fazer as pessoas acreditarem que algum sentido deve existir e aí passar duzentas sessões correndo atrás disso.  É uma profissão que, para os ingênuos, é muito bonita e faz muito sentido.  Bobagem. Eu gosto de ser terapeuta e acredito de verdade que algum bem eu devo fazer pros meus pacientes, mas esperar sentido disso? Cafona.  O sentido de qualquer trabalho é sair do trabalho e não fazer nada. -- A vida mais sem sentido talvez seja a com mais sentido: ficar aqui por um tempo, trabalhar um tanto, comer algumas coisas gostosas e ocasionalmente passar a mão num gato. Depois, pendurar as chuteiras, sem culpa nenhuma, e dormir pra sempre.  É o verdadeiro paraíso.  Nunca pensei "que ódio, vou tirar uma sonequinha depois do almoço" ou acordei pensando "que experiência horrível essa de me desacoplar da vida por uns minutinhos...