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Queimada

Jogo de queimada.

Dois times. Um de uniforme verde e amarelo, o outro vestindo vermelho.

Os dois atiram a bola com força, tentando derrubar o maior número de adversários possível.

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A divisão política que temos passado traz uma violência que aparece em embalagens diferentes: do padre que apanha sendo chamado de comunista ao pai de família chamado de alienado por ser conservador, todos tem tentado gritar mais e mais alto, e os rancores parecem irreconciliáveis.

É uma Guerra Fria de baixo orçamento. Uma superpotência arrotando poder e capacidade bélica contra a outra, a errada que tinha que ser detida antes de que o estrago (do comunismo ateu ou do capitalismo opressor) fosse grande demais.

Os dois lados com poder, os dois lados com raiva e - o sentimento esquecido - os dois lados morrendo de medo.

Medo de perder a relevância, medo que o inimigo vencesse e lhe arrancasse a certeza de estar certo, de ser bom, de ter valor.

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É o mecanismo da Maldade Atribuída: quando uma pessoa está incerta quanto à sua segurança em uma questão que lhe parece importante, atribui ao outro lado contornos de grande vilão, de que agem da maneira que age simplesmente por maldade.

Numa hora dessas, de catarse coletiva, nada une tanto quanto um inimigo comum. Odiar em grupo dá um senso de comunidade, além do sentimento de algum valor intelectual. Afinal, se eu penso de um jeito e meu grupo me apóia, eu só posso estar certo. E se eu e minha turma não gostamos de quem está do outro lado é porque isso tem algum motivo.

Qual motivo? Ora, o outro lado está errado.

Se eu sinto que uma situação está fazendo mal para o meu país, quem é a favor dessa situação só pode estar querendo o mal do país. Por ser burro, por ser mau, por ser vendido, quem é contra o que eu acredito está contra mim, está errado, e a discussão acaba aqui.

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Acreditar que quem discorda da gente tem sua razão não quer dizer que a gente não possa lutar pelo que acredite. Ainda somos responsáveis pelo que acreditamentos. Dizem que tem uma ala inteira do inferno só pra gente que votou errado com intenções boas.

Mas isso não se trata de estar correto ou não.

Trata-se de respeitar a opinião alheia, e só se respeita a opinião do outro quando se respeita a própria. Leia-se, quando verdadeiramente se respeita a própria opinião como aquilo que ela é: só uma opinião.

Válida. Com embasamento. Com motivos. Com razão. Exatamente como a opinião de quem está discordando.

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"Mas esse é um momento político crucial, a gente não pode deixar de lutar pelo melhor!"

Ainda que as opiniões sejam diversas, imagino que o objetivo seja comum. Queremos ter grandeza como nação, queremos ter orgulho de quem somos e exercer nossa cidadania com orgulho.

Parece que, coletivamente, topamos a briga de reformar o jeitinho e do Meu-Pirão-Primeiro que está tão arraigado no nosso DNA de nação, pra tentar mudar as coisas num nível mais profundo.

E como estamos tentando reformar nossa democracia? Xingando a presidente de vagabunda e um juíz de filho da puta? Gritando "petralha" e "coxinha" pelas ruas da internet?

Estamos atirando a bola com toda a força no nosso adversário nesse jogo de queimada, esquecendo que ele está exatamente no mesmo jogo que a gente. Esquecendo que, quanto mais violento for o ataque, mais violenta será a resposta do outro lado.

Não parece muito coerente.

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As ruas nunca gritaram tão alto. O que está faltando é aprendermos a ouvir.

Pra deixar bem claro: se você não aceita que a opinião do outro tem valor, se não entende que a pessoa que discorda de você pode estar certa, você não está ajudando em nada a cultivar uma democracia.

Sugiro um experimento. Por uma semana, antes de dar uma resposta a alguém que seja contra sua opinião política, deixe claro para a outra pessoa que você entende a lógica por trás do ponto de vista dessa pessoa. Diga qual é essa lógica. Fale o que você admira na opinião dela. Explicite como, no fundo, vocês desejam a mesma coisa. Mostre como a opinião dessa pessoa lhe faz sentir, e só então diga, claramente, como você acredita que a solução possa ocorrer e por quê.

Quem sabe depois dessa semana você consiga entender melhor quem está do outro lado. Quem sabe o outro lado consiga se sentir escutado e se abra ao seu ponto de vista.

É muito provável que os dois times continuem discordando.
Mas assim ninguém precisa sair queimado.

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