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Cia. Subterrânea das Boas Intenções

Boa intenção todo mundo tem.
Com engenharia reversa suficiente, dá pra achar boa intenção em qualquer atitude que alguém tome.

O próprio Satanás, o bode expiatório mais lembrado pelos consumidores, teve boa intenção, se você olhar bem. Afinal, o mundo inteiro era perfeito, ninguém tinha acne e a forma de entretenimento de maior sucesso era dar nome a bicho, mas o paraíso era uma ditadura, né?

Aí surge esse ventríloquo de serpente e sugere que outra forma de governo poderia ser possível.
Querendo ou não, o Diabo é o pai da democracia. Veja só, que intenção boa.

E deu no que deu.

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O problema é acreditar que a boa intenção é garantia de bom resultado, como se o universo tivesse a obrigação de responder positivamente as nossas atitudes de mocinhos da Disney.

Mas não tem jeito: a gente nunca conhece a situação bem o suficiente pra garantir que não está confundindo as coisas e sendo bem intencionado pro sentido errado.

Como uma colega que me chamou de canto uma vez pra conversar:
"Flávio, eu preciso de ajuda. Acho que meu filho tá com TOC."

Perguntei por quê.
"Ele sempre me deixava deitar na cama com ele, ficar conversando... Agora ele deu de não deixar entrar no quarto dele, sai do quarto correndo pra lavar a mão, fica horas no banho. Começou a lavar as próprias roupas... Acho que ele tá maníaco por higiene!"

Não foi fácil explicar que o menino tava maníaco por se divertir usando uma parte específica do corpo dele.
As mãos, claro.


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Acho que o recorde de boas intenções que deram errado é do cientista americano Thomas Midgley Jr.

Quando Thomas começou sua carreira, os sistemas de refrigeração dependiam de gases muito perigosos para funcionar. O ar condicionado até gelava, mas os gases dentro dele podiam pegar fogo, explodir ou pular o papo furado e te matar envenenado de uma vez.

Thomas quis deixar os lares americanos mais seguros e se pôs a estudar. Chegou a um composto quimicamente inerte muito mais seguro do que os utilizados em sua época. Revolucionou a área. Tornou a vida de muita gente mais tranquila. Foi reconhecido como gênio.

O nome do composto que ele inventou? Clorofluorcarbono.
O mesmo CFC que arregaçou a camada de ozônio e vai fazer o câncer de pele ser a moda do verão de 2025.  Hoje, Thomas é considerado o ser vivo que mais danificou o ambiente ao seu redor na história do planeta.


"Meu sonho é fazer do mundo um lugar melhor!"
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Thomas não parou por aí.

Na década de 1920, os automóveis não eram muito confiáveis. Thomas descobriu que, adicionando tetraetilchumbo aos combustíveis, os motores rodariam muito mais suavemente.

Foi outra revolução. Thomas ganhou prêmios e fama com sua invenção, até começarem a perceber que respirar o chumbo que saía dos escapamentos dos carros não era a melhor coisa do mundo.

Thomas ficou indignado. Foi a público provar que sua invenção era segura.
Lavou as mãos com o composto. Botou uma garrafa do produto debaixo do nariz e respirou fundo várias vezes, provavelmente olhando ao redor com as sobrancelhas levantadas e dizendo "Olha, é seguro! É seguro! Confia em mim!".

Pouco tempo depois, Thomas teve que se afastar do trabalho e foi internado com sinais de intoxicação por chumbo. Vários funcionários das plantas fabris que produziam o composto morreram por efeitos colaterais da inalação.

O efeito do chumbo lançado ao ar por essa invenção foi associado a maiores níveis de doenças mentais, pulmonares e neurológicos em cidades inteiras expostas ao aditivo, e até a índices mais altos de violência cometida por pessoas que respiraram resquícios do composto.

Puro como o ar do campo!


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A vida desse homem era um infomercial da Polishop, porque TEM MAIS!

Apesar das mancadas científicas bem intencionadas, Thomas Midgley Jr. continuou sendo considerado um grande químico e um incentivador do avanço das ciências nos Estados Unidos até sua velhice.

No fim da vida, Thomas contraiu poliomielite. Para não dar muito trabalho aos seus cuidadores (olha a boa intenção!), ele inventou um sistema de cordas e roldanas que poderia levantá-lo da cama com mais facilidade.

Um dia, tentando se levantar, Thomas se enroscou nas cordas e, paralisado, não conseguiu se soltar. Sem ninguém por perto para ajudar, Thomas morreu estrangulado pela própria invenção.

Justamente aquela que ele fez pra não dar trabalho pra ninguém.

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Mas se a boa intenção nos atrapalha, também é ela que consegue nos dar alguma paz de espírito.

Afinal, nem um anjo de luz, nem uma mãe preocupada e nem um gênio da química conseguem acertar o tempo todo. O mais perto do acerto que a gente chega é no querer acertar.
E isso quem não quer?

Já que errar é inevitável, só nos resta ir de encontro ao erro com a melhor das intenções.
Se não for suficiente, tudo bem. A gente se encontra no inferno.

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