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Wallace

Para quem tem uma ideia mais liberal das coisas, a batalha não para.
A sociedade é um vidro de conserva e joga vinagre em tudo o que você tenta fazer para mudar as coisas.

A gente se consola com o pensamento de que o progresso é inevitável, mas a câmara deputados se dá a liberdade e puf!, é 1964 de novo.

Só pra esfregar na nossa cara o quanto mudar é difícil, e como a gente corre o risco de morrer sem ter visto um mundo com mais liberdade e justiça.

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George Wallace era um demagogo de primeira.

Quatro vezes governador do Alabama, George era um conservador que pregava a segregação racial com todas as suas forças.

Nada de pautas LGBT ou feministas. Só o racismo, que é a figurinha que vem de graça no álbum de qualquer reaça, já bastava para fazer uma agenda bem repressiva para a época.

"Olha como meu pulso não dobra!"


"SEGREGAÇÃO HOJE, SEGREGAÇÃO AMANHÃ, SEGREGAÇÃO SEMPRE", diziam os cartazes da campanha de George Wallace.

O povo gostou. O povo tende a gostar desses bocudos que falam o que a maioria pensa.

(A maioria tende a achar que ninguém pensa como ela, e elege como ídolo qualquer mané que perca a vergonha de vomitar as suas asneiras em público).

Wallace foi eleito uma vez. Duas.
Na terceira, sem poder repetir a candidatura, colocou a mulher como candidata-barriga-de-aluguel.
Isso num estado conservador, mais ou menos quarenta anos depois das mulheres terem conquistado o direito ao voto. Missão difícil, mas o discurso segregacionista e o carisma de Wallace deram conta do recado.
Nada de avanços: a esposa manteve as medidas de segregação racial, num estado já marcado pelo preconceito.

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Esse Bolsonaro que deu certo aumentou suas ambições e lançou candidatura à presidência dos Estados Unidos. Fez um sucesso estrondoso, mesmo numa época em que a segregação racial já começava a ser mal vista.

Fez barulho, mas não conseguiu se eleger. Tentou uma, duas, quatro vezes.

Até que em um de seus comícios, George Wallace levou dois tiros - não de um opositor, mas de um apoiador de suas ideias que se entusiasmou demais com o discurso de violência do candidato.
Um dos tiros se alojou em sua espinha, e Wallace ficou confinado à uma cadeira de rodas pelo resto de sua vida.

"Isso vai pegar bem no futuro", disse ele.


Ainda muito popular, Wallace manteve sua influência após o atentado.

Entretanto, a tentativa de assassinato mexeu com as suas certezas. No final dos anos setenta, Wallace se declarou um cristão-renascido e lançou-se mais uma vez candidato ao governo do Alabama. Venceu novamente, e, para a surpresa geral, abandonou o discurso segregacionista.

Indicou tantos membros do governo negros que, até hoje, o número de participantes negros na chapa governatorial de Wallace nunca foi ultrapassado no Alabama.

Depois de quase morrer, Wallace se arrependeu do discurso segregacionista e tentou (talvez tarde demais) reparar o estrago que fez.

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Na maior parte das vezes - infelizmente - não se defende uma causa por empatia.
Luta quem sofre.
É a favor do casamento gay quem não aceita ficar à margem.
É contra o estupro quem corre risco.
É contra o racismo quem já foi discriminado.
É pelo feminismo quem tem sangue de mulher para derramar.

São poucos os que tem a sabedoria de colocar a dor do próximo pelo ângulo da própria e entendem que não basta lutar só por si.
Que precisamos estar lado a lado, seja qual for a nossa dor nessa pluralidade de discriminações que há no mundo.

Que não é preciso levar um tiro na espinha e ficar paraplégico para entender a luta de quem é mais fraco.

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Só com muita empatia para a gente conseguir ter força o suficiente para continuar minerando mudança.
Segregação hoje, segregação amanhã, pode até ser inevitável. Segregação sempre, não iremos permitir.
Questão de empatia.

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