Pular para o conteúdo principal

Cabeças

Muito tempo atrás, as pessoas eram livres.
A cada dia se acordava numa cabeça diferente.

Quem estava no corpo de uma senhora de cara fechada em uma noite, abria os olhos no corpo de um menino sapeca no dia seguinte.
Quem era um adolescente irresponsável num dia, acordava no seguinte no papel de um pai de família que batalhava para sustentar os filhos.

Nessa impermanência, todos se entendiam. Todos pelo menos tentavam respeitar o próximo, pois no próximo dia o próximo podia ser ele.
Ninguém fazia mal de propósito, sob o risco de acordar naquele corpo na manhã seguinte e ter que aguentar o sofrimento que causou.

Quando a dor inevitavelmente vinha, todos entendiam muito bem que o sofrimento era passageiro. Amanhã, querendo ou não, você seria outro.

--

O ser humano não sabe lidar com a sorte. Sempre acha que os dados estão viciados a seu desfavor.

Alguns começavam a se ressentir.
"Há muito tempo eu não acordo rico. Não é justo. Há meses não sinto o gosto de um caviar."
ou
"Sinto falta do amor que eu senti quatrocentos dias atrás. Não é justo que eu não possa vivê-lo."

E, pela insatisfação geral, o vento que soprava as mentes de corpo em corpo parou.
Quem sabe assim ficaríamos satisfeitos.

--

Eis que onde antes éramos livres, agora estávamos confinados.
Ficamos presos em uma cabeça só, até o fim de nossos dias. Presos em uma vida só, em uma só experiência.

Presos na mesma angústia, nas mesma piscina onde ondulavam os erros nossos e dos outros.

E, dia após dia, precisávamos escutar a mesma voz na mesma cabeça. Com as mesmas tragédias.
O amor que se perdeu num dia continuava perdido no outro. As saudades de um dia eram também do dia seguinte.

O outro, quando discordava, era um inimigo em potencial. Cada um em uma só cabeça, uma ação mal planejada poderia ferir pra sempre. O outro era um perigo.
Não se pode chegar verdadeiramente perto de quem é uma ameaça para nossa segurança.

--

Fomos ficando solitários.
Ser uma pessoa só é muito pouco pra quem nasceu para ser muitos.

Mesmo confinados, aprendíamos. Cultivamos a paciência. Engolimos a seco a humildade.

E, missão mais difícil de todas, aprendemos a gostar da cabeça que nos aprisionava.
Quem chegava nesse ponto, conquistava a paz.

--

Alguns nunca se adaptaram a viver numa cabeça só.

Uns fugiam, atravessando o mundo para mudar o cenário e manter a sensação de que não estavam mais na vida do dia de ontem.
Outros vestiam roupas de outra vida e subiam num palco, e lá fingiam que eram outra pessoa com outra dor.
Outros, menos afortunados, ouviam vozes na própria cabeça, e essas vozes brigavam entre si, e cada uma dessas vozes era um mundo só dela.

Os viajantes, os artistas, os loucos.
Podiam não ter conquistado a paz, mas eram livres novamente.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Enganei o bobo na casca do ovo

Quem disse que desenho animado não é ciência?  Bem, ninguém disse isso, mas eu me surpreendi quando fiquei sabendo que um dos meus clichês preferidos de desenho infantil tem a ver com um prêmio Nobel.  Lembra quando o Tom, do Tom e Jerry - ou qualquer outro desenho da época - via um ovo chocar e o pintinho que saía de dentro o chamava de mamãe, e o seguia por todo lugar? Isso aconteceu com um cientista chamado Konrad Lorenz, que estudava biologia, psicologia e o que mais tivesse pela frente, e que um dia, tal como o Tom, viu chocar um ovinho de ganso. Bem, o histórico de Lorenz não era muito bom (com alguns estudos voltados a descobrir se "híbridos germânico-polacos" tinham a mesma capacidade de trabalho que ditos "alemães puros", aquele nazisminho básico). Ainda assim, o ganso lhe deu uma oportunidade de ressignificar sua obra, porque assim que nasceu, começou a seguir o cientista alemão. O cientista não tinha penas, não tinha os dedos dos pés grudados (que eu saib...

Dando sopa

Às vezes me sinto a pessoa mais influenciável do mundo. Estava voltando da faculdade e tentando ler um livro enquanto o ônibus chacoalhava de lá para cá. Na história, pra demonstrar a pobreza do personagem, o autor fez questão de fazer constar que ele só come sopa, em todas as refeições. Uma das cenas descrevia com riqueza de detalhes a sopa que o rapaz comia: rala, com poucos pedaços de frango, arroz do dia anterior e algumas batatas picadinhas. A intenção era despertar piedade do personagem. O efeito foi o de me deixar morrendo de vontade de comer sopa. -- Em pleno verão, bater na porta dos vizinhos mais amigáveis perguntando se eles tinham sopa não era uma opção - e sim, se fosse inverno eu teria cara-de-pau suficiente de fazer isso.  A solução foi caminhar até um hipermercado perto de casa, o único lugar aberto naquele horário. Talvez eu achasse sopa em lata por lá. -- Pelo menos quinhentas pessoas se amontoavam na entrada do supermercado. Pessoa...

Zombeteiro

Nada é mais cafona em pleno ano de 2025 do que querer um sentido pra vida. Eu não devia falar isso em voz alta, porque meu emprego literalmente é fazer as pessoas acreditarem que algum sentido deve existir e aí passar duzentas sessões correndo atrás disso.  É uma profissão que, para os ingênuos, é muito bonita e faz muito sentido.  Bobagem. Eu gosto de ser terapeuta e acredito de verdade que algum bem eu devo fazer pros meus pacientes, mas esperar sentido disso? Cafona.  O sentido de qualquer trabalho é sair do trabalho e não fazer nada. -- A vida mais sem sentido talvez seja a com mais sentido: ficar aqui por um tempo, trabalhar um tanto, comer algumas coisas gostosas e ocasionalmente passar a mão num gato. Depois, pendurar as chuteiras, sem culpa nenhuma, e dormir pra sempre.  É o verdadeiro paraíso.  Nunca pensei "que ódio, vou tirar uma sonequinha depois do almoço" ou acordei pensando "que experiência horrível essa de me desacoplar da vida por uns minutinhos...