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Acertando as contas

Quando era um adolescente sem maiores responsabilidades, eu tive a sorte de saber como era bom ser um adolescente sem maiores responsabilidades.

Aproveitei a condição e matei aula como se fosse a realidade matando esperanças.

No ensino médio, reprovei duas vezes em matemática e uma em física.

Engraçado, porque hoje, se eu tenho algum arrependimento, é o de não ter prestado mais atenção nas aulas de matemática. Quando vejo um cálculo enorme e cheio de letras, sinto inveja dos bem versados nessa língua estranha.

E olha que eu sou um clichê encarnado das ciências humanas, nascido e criado com miçangas na mão.

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Talvez como mecanismo de defesa, intimidados pela exatidão dos números, muita gente de humanas considera a matemática uma ciência menos elevada intelectualmente. Chega a ser irônico.
Pouquíssimo tempo atrás, era comum um grande filósofo se preocupar tanto com encontrar o sentido da vida quanto com encontrar o valor de xis.

Descartes, Platão, Pascal, Pitágoras, todos eram homens com profunda compreensão da experiência humana e cérebro afiado para a matemática.

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Devemos estimular a inteligência por completo, apreciar todos os tipos de raciocínio, sem preconceitos.

E não só como "musculação" para o cérebro. Como conhecimento mesmo.

Como compreender os desequilíbrios sociais sem saber calcular uma taxa de juros, meu Deus?

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"Mas eu sou horrível em matemática!"
Não, não é. A não ser que tenha uma lesão grande no giro angular do seu cérebro.
Improvável: essa área, que processa os cálculos matemáticos, é a mesma envolvida em vários processos de compreensão de linguagem, memória e inteligência espacial.

Então, se você consegue diferenciar direita de esquerda e dizer quem descobriu o Brasil, acredite: você é capaz de compreender Bháskara.

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Infelizmente, as experiências de muitos de nós com o estudo da matemática foram negativas.
Para quem é mais ligado a poemas do que em lógica, pode ser difícil se entregar à labuta necessária para resolver uma equação complexa.

Mas é questão de didática.
Talvez essa briga de irmãos entre humanas e exatas possa ser resolvida com um abraço.

As ciências humanas abraçando as exatas e oferecendo uma pedagogia mais sensível a essa área tão importante do conhecimento, e as exatas nos ajudando a enxergar o concreto do mundo com mais persistência.

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Talvez aí a gente lembre que a matemática pode, quem diria, ser uma fonte de prazer. Ou vai dizer que não era muito gostoso quando você finalmente compreendia um conceito novo e acertava uma conta difícil?

Um mesmo cérebro pode ser muito capaz de fazer contas e fazer de conta. De tirar os noves fora e botar os pingos nos is.

Assim, de um jeito mais humano, a gente acerta as contas.

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