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Vergonha e orgulho

Ontem eu tive vergonha dos meus pais.

Estávamos nós, eles exaustos de viajar o dia inteiro, passando algumas horas comigo antes de seguir viagem madrugada adentro, eu querendo agradar e disposto a levá-los a algum lugar bacana pra mostrar como, apesar de telefonar todos os dias me fazendo de coitado, as coisas estão indo bem.

Eles preferiram ir ao Subway. Era rápido, tinha salada, tinha cafeína e isso era tudo o que eles precisavam para seguir dirigindo a madrugada inteira.

É o mesmo fast-food em que eu apareço no fim da noite, em fiapos, prestes a comprar um sanduíche da promoção antes de voltar para casa e ligar para os meus pais me fazendo de coitado.

E entramos na fila. Minha mãe primeiro, então meu pai e depois eu.

Um pássaro sob o efeito de LSD não daria tantas voltas para voar quanto minha mãe deu para escolher o sabor que queria. Perguntou o que era cada um dos recheios. Conjecturou. Perguntou a opinião do atendente sobre cada um.

Botou a mão no queixo e coçou a cabeça como se a extinção da fome no mundo dependesse do recheio daquele sanduíche.

Eu atrás, como um adolescente, batendo o pé no chão e pensando "Afe".

O atendente, um rapaz com a cara, a voz e os trejeitos do Lázaro Ramos, que me fez pensar que em algum momento o Luciano Huck apareceria e revelaria que tudo era uma brincadeira e eles iam reformar minha casa, teve a maior paciência do mundo.

Explicou ingrediente após ingrediente, disse qual achava mais gostoso, foi um lorde.

E foi a vez do meu pai.

Meu pai não é indeciso, mas é um palhaço. Escolheu rápido, mas justificou cada um dos sabores.

"Então o Frango Teriaki, o Steak de Frango e o Frango com Cream Cheese são todos de frango?"

Lorde Lázaro Ramos disse que sim.

"Que bom. Eu gosto de frango."

Eu ao lado dele, com os olhos quase enxergando o cérebro de tão virados pra trás.

Então foi minha vez de pedir.

Eu já sabia meu sabor de cor.
Mas aí eu lembrei que tinha uma outra combinação que eu não tinha experimentado.
Perguntei se dava pra adicionar.
Dava.
Fiquei na dúvida. Decidi que ia adicionar, sim.
E se dava pra tostar com a salada junto.
E se ia ser ruim pra fechar o pão se tostasse com a salada junto.
"Porque fica ruim se não der pra fechar o pão direito, né?"
E perguntando a opinião do Lázaro Ramos.

E eu me dei conta.
Como eu sou igual a eles, como eu sou assustadoramente igual a eles.
Se eu fosse meu parente, e estivesse atrás de mim na fila, eu estaria lá, batendo o meu pé e pensando Aff e virando os olhos e morrendo de vergonha, sem perceber que a pessoa na minha frente na fila era exatamente eu.

Só que com mais carinho por mim, parando no intervalo de doze horas de viagem para poder sentar numa lanchonete comigo e assistir a novela.

O lanche acabou e eles foram de volta para casa.

E eu fiquei aqui, digerindo um Subway com o coração apertado, morrendo de saudades, como se já não fizesse oito anos que eu moro longe e não estivesse acostumado a vê-los só de vez em quando.

Como se eu não fosse o adulto que se acha bacana o suficiente para querer levar os pais num restaurante mais chique, pra eles terem uma experiência diferente e quem sabe sentirem um pouco de orgulho.

Como se eu ainda fosse o exato mesmo menino do interior que se mudou para a capital carregando algumas roupas numa sacola emprestada, sem saber pedir num restaurante de fast food, achando que uma bolsa para fazer faculdade ia me transformar numa pessoa completamente diferente.

Sim, eu mudei muito, mas mesmo mudado eu sou exatamente igual a eles.
Nada mais do que um pedaço deles.

E só isso.
Ontem, eu tive muito orgulho dos meus pais.

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