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Por amor

Surpresa: o Trump venceu.

E tá o mundo inteiro com as mãos na cabeça pensando "Puta que pariu, sério isso?".

Estamos decepcionados.

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Os tempos tem sido difíceis pra quem acredita na igualdade.
Temer, Crivella, Trump e companhia estão fazendo brincando de cirandinha ao nosso redor e cantando vitória.

O poder voltou às suas velhas mãos.

Mas, amigos, é hora de se acostumar com a decepção. É ingenuidade achar que os avanços do mundo duram para sempre.

Infelizmente, o poder sempre foi egoísta, misógino e violento.
Não há nada de novo debaixo do Sol.

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A gente, quando luta por igualdade e paz, é porque já sofreu nas mãos desse poder e não quer que tudo continue assim, perpetuando sofrimento.

Até tivemos nossas pequenas glórias: os homossexuais já estão sendo mais tolerados, a discussão racial nunca esteve tanto em pauta, conseguimos eleger governos com uma visão social maior em vários países...

Quando alguém está no poder e olha para o nosso lado, é fácil cair na ilusão de que o poder está do nosso lado. Que estamos vencendo.

Acreditar que tudo vai mudar pra sempre, ou que pelo menos a evolução, ainda que lenta, vai ser ininterrupta.

E então o mundo dá uma reviravolta e tudo parece retroceder um século.

O poder nunca foi nosso.

--

É fascinante testemunhar a história acontecendo, poder estar presente e atento no exato momento que o mundo se lança rumo ao desconhecido.

Foi assim quando as torres gêmeas caíram. Foi assim quando o Obama foi eleito.
Quando o Putin invadiu a Crimeia.
Quando a Dilma caiu.
Quando o Trump foi eleito.

Estivemos lá, de frente para uma tela, assistindo a uma reviravolta e pensando em como o mundo seria diferente a partir dali.

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É fácil se assustar com um momento como o de hoje, em que a gente se assusta com o triunfo da maldade, porque damos de cara com uma maldade óbvia.

O homem é uma abóbora de Halloween em cima do corpo de um espantalho, pelo amor de Deus.

Parece que está tudo piorando, mas as estruturas do mundo são velhas e muito mais firmes do que desejamos acreditar.

Tudo está como sempre foi.
A gente ainda vive num mundo em que o natural é atirar pra baixo.
Em que o aceitável é olhar pro sofrimento do outro e pensar "Antes ele do que eu".
Um mundo em que o diferente precisa sofrer.

Nossos pais viveram num mundo assim. Nossos avós viveram num mundo assim.
É muita inocência achar que a nossa geração também não passaria por um momento sombrio, de um poder opressor e violento.

O mundo sobreviveu a coisas muito piores, o desejo de igualdade sobreviveu a períodos muito mais tenebrosos.
Entre mortos e feridos, o desejo de lutar seguiu em frente.

Tivemos nossos lampejos de "estamos quase lá"? Tivemos.
Mas é hora de arregaçar as mangas de novo.

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Falta ânimo pra seguir acreditando? Então precisamos lembrar que nosso esforço faz sentido.

Lembrar que não lutamos por benefício próprio e não batalhamos para segurar as coisas como sempre foram.

Que nós lutamos por amor.
Lutamos por acreditar que cada um merece ter sua voz ouvida, ainda que não seja um bilionário de cabeça laranja.

Por acreditar que o pobre, a mulher, a travesti, o louco, o fraco, todos devem ter seu direito respeitado.

A gente ainda pede igualdade e justiça porque ama.
Porque acredita no amor, em lutar com amor, lutar por amor, lutar pelo amor.
Ainda que em tempos sombrios.

E a hora, mais do que em qualquer outro momento da nossa geração, é de seguir lutando.
Amando.
Acreditando.

De ter o coração valente, mas começando por ter coração.
Porque é o coração que nos dá sentido nessa hora. E, sem sentido, não existe força.

E haja força pra viver num mundo desses.

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