Pular para o conteúdo principal

Autoconhecimento

"Olha, eu não tenho nenhum problema grande, estou aqui pra mais pra me conhecer mesmo..."
É o que me dizem todos os pacientes que vão passar o resto da sessão falando sobre um problema específico.

Acontece. Não há jeito de trabalhar uma questão específica sem vasculhar o arquivo inteiro da vida em busca de uma resposta.
Ao mesmo tempo, depois de vasculhar o arquivo inteiro, você acaba tendo uma ideia bem melhor de quem é.

--

Essa ideia de "Se conhecer" é engraçada, né?
É como ter um irmão gêmeo grudado em você pelo pescoço, com o mesmo corpo e as mesmas experiências que você tem, e não fazer ideia de como ele pensa.

Parece difícil, mas vai saber.
É capaz de, nessa situação, muita gente conhecer muito mais ao irmão do que a si mesmo.

--


Outra coisa: se conhecer e se gostar são coisas diferentes.

Nem todo mundo tem um recheio cremoso com sabor de morango. A gente tende a ser muito mais amargo e difícil de digerir.

Mas o irmão é uma comparação válida: conforme os dois crescem juntos, é natural que briguem, se odeiem, se estranhem, se rejeitem... E é assim entre conforme a gente se conhece também.

Se autoconhecer não é um processo pacífico.

--

Não basta se conhecer passivamente, só de olhar para si mesmo.

O autoconhecimento de verdade é um processo muito mais próximo de escrever um livro do que de ler um.

É uma tarefa que exige algum planejamento.

--

Muito bem, mas como se conhecer?
Deixo algumas sugestões:

- Tente conhecer as outras pessoas. Algumas das coisas que eles sentem são universais e também vão se aplicar a você.

- Invente pessoas. Vá para um lugar cheio de pessoas e imagine a vida que elas devem levar. O que você imaginar sobre elas vai dizer muito sobre você mesmo.

- Sofra de enxaqueca. Você vai aprender o quanto sua vida é boa só por estar sem dor nenhuma, e de quebra vai perceber que às vezes querer morrer é natural.

- Fique nu no chão do seu quarto. Arranje uma caneta Bic e desenhe em sua pele. Rabisque do jeito que a sua mão, e não a sua cabeça, desejar. Isso vai lhe mostrar o limite do seu corpo, e que é possível ser criativo mesmo com limites.

- Arranje um espelho que caiba na mão e o leve para perto do seu cu. Assista-se peidar. Isso vai te dar uma intimidade com o seu corpo e te mostrar que não tem tanta diferença assim entre soltar um peido e mandar um beijo.

- Decepcione seus pais. Dê orgulho pros seus pais. Se decepcione com seus pais. Tenha orgulho dos seus pais. Entender quem eles são é um atalho para entender quem você é.

- Vá a um lugar com muita, muita beleza e se permita só apreciar. Tenha a certeza da existência de Deus.

- Vá a um lugar com muito, muito sofrimento e se permita só doer. Tenha a certeza que Deus não existe.

- Envelheça. Ficar mais jovem é muito contraprodutivo para quem quer se conhecer.

- E não se cobre tanto. Só de estar ali, convivendo consigo mesmo, cê já vai descobrir muita coisa - e provavelmente vai ficar feliz com o processo.

E se o processo ficar difícil demais, antes, durante ou depois disso tudo, procure um terapeuta.
Não existe um mapa exato para se encontrar, mas existem algumas bússolas que podem te ajudar no processo.

--

O que dá pra dizer com certeza sobre autoconhecimento é o seguinte: você vai acabar se surpreendendo.

Tenta aí.

Comentários

Postar um comentário

Postagens mais visitadas deste blog

Enganei o bobo na casca do ovo

Quem disse que desenho animado não é ciência?  Bem, ninguém disse isso, mas eu me surpreendi quando fiquei sabendo que um dos meus clichês preferidos de desenho infantil tem a ver com um prêmio Nobel.  Lembra quando o Tom, do Tom e Jerry - ou qualquer outro desenho da época - via um ovo chocar e o pintinho que saía de dentro o chamava de mamãe, e o seguia por todo lugar? Isso aconteceu com um cientista chamado Konrad Lorenz, que estudava biologia, psicologia e o que mais tivesse pela frente, e que um dia, tal como o Tom, viu chocar um ovinho de ganso. Bem, o histórico de Lorenz não era muito bom (com alguns estudos voltados a descobrir se "híbridos germânico-polacos" tinham a mesma capacidade de trabalho que ditos "alemães puros", aquele nazisminho básico). Ainda assim, o ganso lhe deu uma oportunidade de ressignificar sua obra, porque assim que nasceu, começou a seguir o cientista alemão. O cientista não tinha penas, não tinha os dedos dos pés grudados (que eu saib...

Dando sopa

Às vezes me sinto a pessoa mais influenciável do mundo. Estava voltando da faculdade e tentando ler um livro enquanto o ônibus chacoalhava de lá para cá. Na história, pra demonstrar a pobreza do personagem, o autor fez questão de fazer constar que ele só come sopa, em todas as refeições. Uma das cenas descrevia com riqueza de detalhes a sopa que o rapaz comia: rala, com poucos pedaços de frango, arroz do dia anterior e algumas batatas picadinhas. A intenção era despertar piedade do personagem. O efeito foi o de me deixar morrendo de vontade de comer sopa. -- Em pleno verão, bater na porta dos vizinhos mais amigáveis perguntando se eles tinham sopa não era uma opção - e sim, se fosse inverno eu teria cara-de-pau suficiente de fazer isso.  A solução foi caminhar até um hipermercado perto de casa, o único lugar aberto naquele horário. Talvez eu achasse sopa em lata por lá. -- Pelo menos quinhentas pessoas se amontoavam na entrada do supermercado. Pessoa...

Zombeteiro

Nada é mais cafona em pleno ano de 2025 do que querer um sentido pra vida. Eu não devia falar isso em voz alta, porque meu emprego literalmente é fazer as pessoas acreditarem que algum sentido deve existir e aí passar duzentas sessões correndo atrás disso.  É uma profissão que, para os ingênuos, é muito bonita e faz muito sentido.  Bobagem. Eu gosto de ser terapeuta e acredito de verdade que algum bem eu devo fazer pros meus pacientes, mas esperar sentido disso? Cafona.  O sentido de qualquer trabalho é sair do trabalho e não fazer nada. -- A vida mais sem sentido talvez seja a com mais sentido: ficar aqui por um tempo, trabalhar um tanto, comer algumas coisas gostosas e ocasionalmente passar a mão num gato. Depois, pendurar as chuteiras, sem culpa nenhuma, e dormir pra sempre.  É o verdadeiro paraíso.  Nunca pensei "que ódio, vou tirar uma sonequinha depois do almoço" ou acordei pensando "que experiência horrível essa de me desacoplar da vida por uns minutinhos...