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Benefícios


Das coisas que eu vejo sendo compartilhadas no Facebook, uma me chama atenção em particular: aqueles artigos pseudocientíficos sobre saúde com nomes como "Sete benefícios incríveis de tomar limão em jejum" e "Os efeitos chocantes de comer um butiá por dia".
Não pelo conteúdo em si, mas por quem compartilha. É uma faixa etária bem específica. Você não vê adolescentes compartilhando receitas de "Máscara caseira contra celulite", por mais celulite que possam ter.
Deve existir alguma lei oculta no universo que só permita compartilhar artigos assim depois dos quarenta.

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Tem um pessoal por aqui vendendo umas garrafinhas que "imantam" a água (segundo eles, como assim você não toma água imantada? água imantada cura até câncer! se for alcalina, então...). Cada garrafinha custa quatrocentos reais.
Cheguei na casa dos meus pais e tinha uma jarra de vidro em cima da mesa da cozinha, cheia de água, com um saquinho dentro.
Dentro do saquinho, bem amarrado, um puta de um ímã arrancado de um alto-falante. Perguntei o que era e meu pai explicou: "Mal não deve fazer, né? Queria testar, mas eu nunca que ia pagar quatrocentos reais numa garrafinha."
Morri de orgulho.
Aí ele me contou que quase pagou 150 reais num e-book com exercícios para o olho que curam a vista cansada e eu desorgulhei um pouco.

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A gente compartilha nas redes sociais coisas que ressoam com o nosso sentido na vida.
Gente que se sente viva lutando por justiça compartilha política, gente que se sente viva se afirmando pela beleza compartilha selfies... Egente que está com medo de ficar sem saúde compartilha "Cinco Receitas Para Regular o Intestino em Uma Semana".
Depois dos quarenta já não se tem ingenuidade pra fingir que não se caga, nem noção para manter isso privado. Tem, e sobra, coragem de mostrar que se segue lutando.

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Além disso, a gente compartilha aquilo que nos faz sentir pertencente a um grupo.
Da mesma forma que a gente compartilha o trailer do novo Star Wars para ganhar likes dos amigos geeks, sua tia Irene compartilha os benefícios da babosa para se afirmar diante das amigas dela.
É a maneira dela de dizer pro mundo "Eu não tô morrendo não, viu? Eu tô até melhorando, curei o furúnculo no meu pé passando babosa nele, menina, nem te conto!".

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O triste é ver que, mesmo com a maturidade, sempre vai existir uma parte da gente que torce por uma fórmula mágica, que resolva todos os nossos males com o menor esforço possível da nossa parte.
Não julgo.
Se tem uma coisa na vida que dá pra entender é que o tempo passa rápido e que ninguém quer ficar pra trás. Se existir alguma receita que ajude a prolongar nossa estadia um pouquinho, ou fazer as juntas doerem um pouco menos, manda ver.
Mesmo que se precise brigar na justiça para poder usar fosfoetanolamina, mesmo que se precise pagar quatrocentos reais numa garrafinha de água imantada.
Melhor ainda se for de graça, com alguma coisa que todo mundo tem em casa. Não custa tentar, mesmo que a receita tenha vindo de um site tão renomado quanto um blog chamado "cura-pela-saude-com-a-natureza121" hospedado no blogspot.
Vale tudo pra gente se sentir um pouco menos como se estivesse morrendo.

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A idade chega pra todo mundo, e se tem alguma coisa que esse povo de quarenta e poucos anos tem mais do que eu é experiência.
Amigos, vou ouvir a voz da experiência e começar cedo. A partir de amanhã, vou tomar o suco de sete limões todo dia em jejum. Vou comer bicarbonato de sódio de colherada, pra alcalinizar o sangue. Vou secar minha barriga em quatro semanas, consumindo um litro e meio de azeite de côco a cada refeição.
Vou me banhar em babosa com tanta frequência, meus amigos, que vou emergir o próprio Highlander.

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Há de funcionar. Se eu sobrevivi a 2016 sem nem me cuidar direito, com essas receitas todas eu vou sobreviver a qualquer coisa.
Serei imortal, a não ser que eu engasgue com o ímã da garrafa de água.

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