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A bola

O prontuário, escrito a caneta, não tinha nada preenchido além do básico:
Nome: Francisco Gomes de Paula
Idade: 27 anos. Sexo: Masculino.
Queixa: Uma bola faltando.

O médico foi conferir.
"Me ajuda, doutor!"
"O que houve?"
"Minha bola. Meu bago. O testículo esquerdo. Ele não está mais lá."
Só podia ser bobagem, pensou o médico. Um testículo não some, assim, do nada.

Deitou o paciente na maca e o examinou.
"É, realmente ela não está aqui. Estranho. Quando você a viu pela última vez?"
"Ela estava aí ontem à noite. Transei com a minha namorada, tava ali, eu juro! Aí ela foi pra casa... Eu botei um disco do Ney pra tocar e fui dormir."

"Arrá!", disse o médico.
"O que foi?"
"Foi o Ney. Homem que é homem não escuta música de veado."
"Mas é o Ney Matogrosso, ele é ót--"
Paf! O médico meteu um tapa na boca do paciente.

"Fala baixo! Quer que sua bola direita escute?"

--

"Só um instante," pediu o doutor. "Vou chamar minha secretária".
Interfonou.
"Selminha, me traga uma água, por favor."
Selminha trouxe. O médico agradeceu e a dispensou.
"Francisco, reparou nela? Três anos atrás, ela era Anselmo."

O paciente não entendeu.
"Como assim?"
"Anselmo era um rapaz considerado. Comedor. Lutador de Jiu-Jitsu. Marceneiro. Não se cuidou e perdeu tudo!
"O que ele fez?"
"Um dia Anselmo comprou uma camisa salmão."
"E acordou mulher, doutor??" - o paciente em pânico.

"Foi gradual. Ele foi ficando moderno, sabe? Começou com a camisa, depois foi jogar vôlei..."
"Não pode vôlei?"
"Não pode. É de mulherzinha. Homem joga futebol."
"E o que aconteceu?
"Nisso nasceu a primeira teta. No outro dia, ele foi falar com um amigo e apoiou a mão na cintura... Nasceu a outra."
"Socorro, doutor!"

--

O médico explicou:
"Ser homem é muito perigoso, Francisco. Há precauções a serem tomadas. Cruzar as pernas, por exemplo, é melhor evitar."
"Nunca mais?"
"Nunca mais. Mas se acontecer, ainda dá pra agir rápido. Cospe no chão que ajuda."
"Se eu cuspir no chão eu não viro mulher?"
"Em termos. Tem de ser uma cusparada firme, com ranho, arrancada do segundo subsolo do pulmão. E tem que ser rápido."
"Algo mais?"
"É importante restringir seus comportamentos. Não pode gostar de doce. Lavar o cabelo, só com sabão de soda. Novela, nem o comercial. Abraçar o amigo só se der tapinha nas costas. Chorar, só se for o enterro da mãe. Você pegou a ideia."
"É isso ou eu vou ficar que nem a sua secretária?
"Exato. Ou você toma esses cuidados ou... até o fim do ano você já não vai ter pinto."
Triste diagnóstico.

--

Abatido, Francisco apertou friamente a mão do doutor para se despedir. O médico gritou:
"Que nem macho, porra!"
Todo o cuidado era pouco, dali em diante.

Na hora de ir embora, o rádio do táxi tocava Homem com H. Na cueca, uma sensação estranha.
Lá se foi a outra bola.

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