Pular para o conteúdo principal

No pequeno e no grande

"E por acaso esse motel
É o mesmo que me trouxe na lua de mel
É o mesmo que você me prometeu o céu
E agora me tirou o chão"

Duvido que uma parcela muito grande da população brasileira tenha encontrado o marido no motel com outra e oferecido cinquenta reais para ajudar a pagar a conta, mas essa foi uma das músicas mais tocadas do país no último ano.

Não é que a gente se conecte com a situação em si.
A gente se conecta com as sensações (de traição, de desamor, de dúvida) e entende muito bem a dor de quem tá cantando.

É que quanto mais íntimo é um problema, mais universal ele é.

Por isso que as músicas que mais fazem sucesso, os livros mais vendidos, as histórias mais pungentes são aquelas que parecem mais íntimas e mais pessoais.

O encontro da arte com a emoção acontece quando a gente vê no "isso só acontece comigo" do outro aquilo que a gente só achava que acontecia com a gente também.

Por isso que música de sofrência faz tanto sucesso (e sim, eu tô chamando a Naiara Azevedo de artista profunda que toca corações, se discordou me bata).

--

O íntimo é universal, e isso vale pra arte e pra vida.

O que acontece no mundo, em grande escala, é mesma coisa que acontece microscopicamente nas nossas salas de estar.

A única diferença entre um barco que afunda com refugiados de guerra e um filho mandado embora de casa por não satisfazer as expectativas dos pais é a escala.

Coloque uma lupa numa discussão de casal e você vai ver algo muito parecido com um tiroteio em Gaza (talvez com um pouco mais de violência).

--

As angústias que eu tenho recebido em consultório, principalmente nas pessoas mais jovens, beiram o desespero.

"Você sabe o que é não ter perspectiva nenhuma? Eu deixo meu chefe cagar na minha cabeça por mil e duzentos reais por mês, e eu tenho sorte de ter esse emprego. Se eu sair da vaga vão contratar outro por mil e cem, e eu vou ficar sem nada. Eu moro num lugar ruim, não vou ter como pagar por um lugar melhor tão cedo, não consigo guardar dinheiro, não tenho tempo pra lazer e não tenho nem tempo pra um relacionamento, quanto mais grana pra sair conhecer alguém. O que eu faço?"

Me fala sobre a sua mãe, colega, porque eu preciso de um tempo pra digerir isso tudo também.

Mas enquanto isso, amplifica essa situação vezes trezentos milhões e você vai entender porque o Brasil está em crise.

--

Estamos com protótipos de ditadores em praticamente todas as esferas da vida pública.
Vamos botar isso no microscópio: como estamos lidando democraticamente com as nossas questões pessoais?

Você, liberal, paz e amor, se bota em uma posição de abertura e escuta quando seu pai quer liberar o armamento? Escuta de verdade, em vez de manter uma postura rígida e agressiva?

Você, firmeza e linha dura, é capaz de manter a ordem e a paz quando se sente desafiado pelo grito de liberdade do seu filho gay? Ou perde a cabeça e prova que não sabe lidar com a diferença?

--

No macro, a população está insatisfeita, revoltada e em silêncio porque, no micro, nós estamos aborrecidos, raivosos e calados com nossas questões pessoais.

Nossos grandes problemas são estruturais, mas são reflexos desses pequenos dissabores com os quais não sabemos lidar.

Esse é o primeiro passo (e talvez o único que possamos dar) para mudar os problemas grandões desse mundo assustador e sombrio: conhecendo melhor nossos pequenos medos e sombras.

--

Se tem algo de bom nesse mundo seco, cruel e de crise é que ele nos oferece a oportunidade experimentar a nossa vida interior de ângulos desafiadores.

Afinal, a gente só aprende em com o que a gente erra ou com o que a gente sofre, em primeira pessoa. Empatia se aprende de dentro pra fora.

Sofrimento e erro a gente tem bastante, e angústia também.
É justamente isso que pode nos curar, e é bem isso que me faz achar que um pouco mais de psicoterapia pode mudar o mundo.  You may say I'm a dreamer... 

Toma aqui os cinquenta reais.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Enganei o bobo na casca do ovo

Quem disse que desenho animado não é ciência?  Bem, ninguém disse isso, mas eu me surpreendi quando fiquei sabendo que um dos meus clichês preferidos de desenho infantil tem a ver com um prêmio Nobel.  Lembra quando o Tom, do Tom e Jerry - ou qualquer outro desenho da época - via um ovo chocar e o pintinho que saía de dentro o chamava de mamãe, e o seguia por todo lugar? Isso aconteceu com um cientista chamado Konrad Lorenz, que estudava biologia, psicologia e o que mais tivesse pela frente, e que um dia, tal como o Tom, viu chocar um ovinho de ganso. Bem, o histórico de Lorenz não era muito bom (com alguns estudos voltados a descobrir se "híbridos germânico-polacos" tinham a mesma capacidade de trabalho que ditos "alemães puros", aquele nazisminho básico). Ainda assim, o ganso lhe deu uma oportunidade de ressignificar sua obra, porque assim que nasceu, começou a seguir o cientista alemão. O cientista não tinha penas, não tinha os dedos dos pés grudados (que eu saib...

Dando sopa

Às vezes me sinto a pessoa mais influenciável do mundo. Estava voltando da faculdade e tentando ler um livro enquanto o ônibus chacoalhava de lá para cá. Na história, pra demonstrar a pobreza do personagem, o autor fez questão de fazer constar que ele só come sopa, em todas as refeições. Uma das cenas descrevia com riqueza de detalhes a sopa que o rapaz comia: rala, com poucos pedaços de frango, arroz do dia anterior e algumas batatas picadinhas. A intenção era despertar piedade do personagem. O efeito foi o de me deixar morrendo de vontade de comer sopa. -- Em pleno verão, bater na porta dos vizinhos mais amigáveis perguntando se eles tinham sopa não era uma opção - e sim, se fosse inverno eu teria cara-de-pau suficiente de fazer isso.  A solução foi caminhar até um hipermercado perto de casa, o único lugar aberto naquele horário. Talvez eu achasse sopa em lata por lá. -- Pelo menos quinhentas pessoas se amontoavam na entrada do supermercado. Pessoa...

Zombeteiro

Nada é mais cafona em pleno ano de 2025 do que querer um sentido pra vida. Eu não devia falar isso em voz alta, porque meu emprego literalmente é fazer as pessoas acreditarem que algum sentido deve existir e aí passar duzentas sessões correndo atrás disso.  É uma profissão que, para os ingênuos, é muito bonita e faz muito sentido.  Bobagem. Eu gosto de ser terapeuta e acredito de verdade que algum bem eu devo fazer pros meus pacientes, mas esperar sentido disso? Cafona.  O sentido de qualquer trabalho é sair do trabalho e não fazer nada. -- A vida mais sem sentido talvez seja a com mais sentido: ficar aqui por um tempo, trabalhar um tanto, comer algumas coisas gostosas e ocasionalmente passar a mão num gato. Depois, pendurar as chuteiras, sem culpa nenhuma, e dormir pra sempre.  É o verdadeiro paraíso.  Nunca pensei "que ódio, vou tirar uma sonequinha depois do almoço" ou acordei pensando "que experiência horrível essa de me desacoplar da vida por uns minutinhos...