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13 baleias why

SOBRE O DESAFIO DA BALEIA AZUL
ou
SOBRE 13 REASONS WHY
ou
SOBRE O QUE VOCÊ QUISER:

Eu sei que você não suporta mais ver textão a respeito dessas coisas.

Eu também não, e eu honestamente acho que a maior parte do que tem sido dito a respeito está um pouco fora de foco.

Transtornos mentais e suicídio são muito mais complexos do que parecem.

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Situação 1:
Eu tinha oito anos e alguns vendedores ambulantes começaram a vender bonequinhos de bexigas recheadas de farinha na porta da escola. Alguém começou a soltar o boato de que dentro das bexigas tinha cocaína.

Pânico.

Os pais exigiram providências. A escola mandou um dos bonequinhos pra análise.
A polícia apareceu. Os vendedores foram tocados dali. Afinal de contas, ninguém quer que crianças em idade escolar usem cocaína.
Isso é para adultos.

A análise de laboratório voltou com o resultado chocante: os bonequinhos de vinte e cinco centavos não continham cocaína nenhuma.
Pena, seriam um ótimo investimento.

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Situação 2:

Minha mãe sempre teve confiança o bastante em mim para não ficar perguntando o tempo todo onde eu ia e o que eu ia fazer, mas uma coisa a deixava apavorada: o perigo de entrar para uma gangue.

Não sei se ela me achava sociável demais ou se ela assistia muitos filmes do Spike Lee, mas a rotina para sair de casa era a seguinte:

"Mãe, vou sair!"
"Tá... Leva uma blusa... A mãe te ama, tá? Não esquece disso."
"Tá bom, mãe."
"Ah, filho", ela fazia a cara mais suplicante do universo, "E não entre em gangues, por favor."

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É óbvio que crianças não se viciariam em drogas só porque brincaram com um brinquedo "batizado". O problema da toxicodependência é muito mais complexo do que isso.

É óbvio que eu não entraria ou deixaria de entrar numa gangue só porque minha mãe mandou eu me cuidar. Primeiro porque não existiam gangues em Pato Branco, vá lá, mas segundo porque a tendência grupal do adolescente é muito mais complexa do que um aviso de mãe pode abarcar.

Da mesma forma:
É óbvio que uma criança não vai se matar só por causa de um desafio de internet ou de um seriado.

Adolescentes se matam quando se sentem profundamente sozinhos.
Adolescentes se matam quando se sentem profundamente incompreendidos.
Adolescentes se matam quando já estão se sentindo mortos.

Não vai adiantar conversar com o seu filho sobre o desafio da baleia azul, não vai adiantar proibir (ou obrigar) seu filho a ver um seriado de TV que fale sobre suicídio.

A única coisa que pode ajudar a prevenir uma tragédia é permitir que seu filho se sinta seguro para conversar, respeitado nas suas individualidades e recebendo limites honestos.

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Uma coisa que certamente vai fazer mal é fingir que a vida é o que não é.
Tentar encaixar todas as angústias de um jovem suicida em um seriado ou um jogo é desprezar alguém que já se sente profundamente desprezado.

Por isso mesmo precisamos falar de depressão, tristeza, morte e suicídio - diabos, precisamos falar sobre tudo! - com todas as letras e com muita atenção.
Escutando de verdade as tristezas e angústias daquela pessoa tão vulnerável que está ali.

Assim, quem sabe, a gente consiga diminuir o risco de que um jovem se suicide.
Ou use cocaína.
Ou entre numa gangue.

Todo mundo sai ganhando.

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