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Encostos

Eu acredito em encosto.
Não acredito em fantasma, mas acredito em encosto.

Você tem um. Certeza que tem. Tem alguma pessoa que assombra você.
Uma assombração viva.


É nessa pessoa que você pensa quando responde o aceno de alguém que não estava acenando pra você. É ela que observa as suas vergonhas. É ela o fantasma que você quer agradar.

E, engraçado, nem sempre é alguém tão importante assim. Às vezes é uma pessoa que a gente nem conviveu direito.

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Meu primeiro encosto foi um menino do ensino médio.

Pele bem branca, cabelo bem preto, jeito de atleta, super gente boa.
Foi bater o olho nele pra ele virar minha referência pra tudo.

Sem saber, ele me controlava. Quando minha voz saía muito alta sem querer, eu me constrangia. Certeza que ele achava isso ridículo. Quando eu fazia uma piada sem graça, era ele o critério. Se ele não ria, estava decretada minha falta de graça.

Perto dele, fui falando cada vez menos e mais baixo.
Com o tempo, fiquei assim mesmo longe dele, como se só imaginar o que ele pensaria da situação fosse suficiente para eu querer me controlar.

Lembro que ele descansava os braços nos quadris quando ficava em pé.
Eu não tinha o hábito de fazer um gesto feminino como esse, jamais me permitiria.
Mas ele fazia isso com tanta naturalidade que... eu me permiti fazer também. Até hoje tenho essa mania.

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Eu sou assombrado por um tipo de encosto muito específico, porque o mais recente tinha o mesmo perfil: pele bem branca, cabelo bem preto, jeito de atleta, super gente boa.

Tivemos um rolo que não deu certo e que me deixou com um gosto amargo de, por um fiozinho só, não ter sido bom o suficiente.
Foi o que bastou pra ele se mudar de mala e cuia pra minha neurose.

Se eu fosse sair de casa, ele estava na roupa que eu usava. Vai que eu topava com ele no supermercado?
Se eu fosse ficar em casa, ele ficava no canto com cara de pena:
"Sabe onde eu tô? Na balada. Me divertindo. Chega a dar dó de você aí."

Às vezes ele me jogava um osso:
"Cueca nova, é? Nada mal, Flavinho, nada mal. Quem sabe um dia..."

Mas eu não me empolgava.
Quase-aprovação é pior do que aprovação nenhuma. Nada pior do que estar na beira de agradar alguém e não conseguir.

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Não há registros na história humana de um encosto positivo.
Seria uma maravilha ser perseguido por pensamentos de aceitação e comentários agradáveis.

A gente teria pensamentos bonitos com ele: "Escolhi bem a roupa de hoje, Encosto ia achar bonito."

"Percebo que você comeu seus vegetais hoje. Que sucesso!", diria o encosto do bem.

Estão certas as crianças, que tem amigo imaginário em vez de uma assombração.

--

O problema não é querer ser aceito. Pode ser bom mirar numa pessoa que você admira pra tentar melhorar também.

O que mata é querer ser aceito por um fantasma.
Querer o aplauso de uma plateia que nunca vai poder te aplaudir, simplesmente porque não está nem olhando para a sua vida.
Pior, conviver o tempo todo com a sensação de ser vaiado.

É a gente que se obsedia quando enfia um padrão na cabeça de como deve se comportar para ser bom o suficiente.

--

Coitados dos meninos. Pensa que responsabilidade, você morar na cabeça de uma pessoa sem saber?
Virar parâmetro pra tudo?

Muito bem. Estão libertos. O encosto era eu.
Agora, alguém me ensina onde compra água benta?

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