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Sofrimentos visíveis

Olha, se existe uma posição fácil na vida é a de ser cronista de psicologia.

O assunto é vasto, o material é rico, as possibilidades são lindas e as pessoas interessadas.

Junte isso com uma ou duas frases de efeito por texto, falando de amor e sofrimento, e muita gente vai te achar muito sábio.

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Agora, se existe uma posição difícil na vida é tentar falar sobre o que se sente quando se está muito mal.

A sensação é confusa, a esperança acabou e você quer chorar, vomitar, ficar sozinho no quarto, apagar a luz, fechar a porta, se fechar, pagar qualquer preço pra não precisar se abrir.

Você prefere morrer do que continuar assim. Literalmente.

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E é nessa hora que eu, o psicólogo cronista cheio das frases de efeito, lembro que a realidade não é tão simples quanto parece.

Que quando eu falo "a gente realmente precisa escutar as pessoas na sua individualidade e angústia", eu não estou pensando na pessoa que está literalmente gritando e batendo no chão, sentindo dores físicas de tão insuportável que a angústia ficou.

Que quando eu digo "um remédio não vai solucionar todos os seus problemas a longo prazo", não lembro do tamanho da vontade que eu tenho de poder aplicar uma injeção de acalmar elefante quando alguém entra em surto na minha frente.

Que quando eu falo, tão cheio de mim, que "se você sobreviver à depressão, você vai ver como ainda vai ser possível inventar uma vida nova", eu esqueço da pessoa que realmente está em risco de não sobreviver à depressão porque sente que já morreu.

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A gente faz muito esforço, como profissão, pra mostrar pras pessoas o quanto os transtornos mentais podem ser invisíveis, e como uma pessoa que aparenta estar bem pode ter um universo de sofrimento silencioso dentro de si.

Mas nem sempre é assim.

Para uma família que lida com um filho esquizofrênico que surta madrugada adentro, o transtorno mental é visível.

Para uma pessoa que percebe que uma fase pesadíssima do seu distúrbio bipolar está pra chegar, o sofrimento é visível.

Existe a dor sutil e sob a pele, e ela merece muita atenção.

Mas eu fico pensando: o quanto a gente fala que o sofrimento invisível precisa ser visto pra se distrair de ver aquela que se recusa a ser invisível?

Porque existe também, e sempre vai existir, o sofrimento bruto, a dor destilada, a loucura que escorre pelos poros e se recusa, aos gritos, a não ser ouvida.

Os transtornos mentais não são, nem de perto, tão limpinhos como a gente gosta de pensar.

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Não que não valha a pena continuar escrevendo e tentando dar respostas um pouco mais práticas para sofrimentos tão comuns a todos nós. Para algumas pessoas, uma dose de esperança que vem de um texto na internet basta.

Para outras, só o trabalho duro e pouquíssima recompensa.

Elas precisam trabalhar duro para hoje - e somente hoje - você não acabar com a sua vida.
Fazem um esforço do cão para conseguir pentear o cabelo, mesmo sabendo que vão se sentir exaustas e destruídas depois.
Arrancam de dentro de si um trabalho hercúleo, com remédios, terapia e um torque impressionante do motor interno, pra tentar funcionar da maneira que se espera de uma pessoa.
Tudo isso pra funcionar mais ou menos como um ser humano, apesar de se sentir constantemente quebrado e ferido.

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Não tenho mensagem de esperança nesse texto, nem uma piadinha pra oferecer. A vida é comicamente sem graça nesses assuntos.

Só quero dizer, pra você que sofre muito: Alguém está pensando em você.

E gostaria muito de ajudar, mas mesmo sendo um pretenso especialista, nem sempre sabe como. O que quer dizer que você não está tão errado em sofrer: sua resposta não é fácil mesmo.

E que você não está sozinho.
E, quem sabe, uma hora as coisas possam melhorar e você tenha a sorte de ter um sofrimento desses invisíveis, que melhoram um pouco com um texto de internet.

Até lá... Te desejo força.

E, mesmo sendo só um estranho da internet, alguém quer muito que você fique bem... e ama você.

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