Pular para o conteúdo principal

Gente fantasiada

Eu gosto de quem não sabe usar rede social do jeito certo.

A internet virou claramente um lugar pra se promover, com regras implícitas de como se deve agir.

Eu gosto de quem não entendeu a regra.
De quem posta uma foto de comida não porque foi no restaurante cool da semana, mas porque a mãe dela fez um quibe cru delicioso e ela quis mostrar pra todo mundo.

Aí faz aquela foto meio tremida, tirada com resolução baixa, de um prato Duralex marrom com uma lasca no ladinho, o quibe meio desmontado, um garfo com a parte de plástico derretidinha porque esqueceram numa panela quente, a toalha de mesa manchada aparecendo no canto...

Dá um gostinho de realidade. Aquilo não foi compartilhado pra fazer charme.
É só porque tava gostoso mesmo.

--

Nem precisa ser uma coisa alegre.

Cês não fazem ideia do número de desconhecidas de meia idade que eu mantenho na timeline só pelo prazer de ver o que elas postam.

Aquelas postagens com 45 fotos quase iguais na frente do espelho do guarda-roupa, como se fosse impossível escolher uma, o cabelo ainda escorrendo água do banho, os olhos meio fechados, a barriga visivelmente encolhida.

Não importa se ela realmente se acha bonita ou não, o legal é ver como é transparente o esforço para que ela seja.

Ela não tem a luz ideal nem um bom aplicativo pra fazer retoques, mas tem um espelho carcomido pelo tempo e bastante confiança.

Ela tem um comentário da tia falando "ta cada dia mais linda minha menina beijo".
Ela tem um crush meio iletrado falando "nossa mas se eu te pego hein kkkk".

E ela curte isso.

Tem coisa mais singela?

--

Uma cliente me contou, e me deixou recontar, a história de quando era criança e foi a uma festa de aniversário. Já na entrada, deu de cara com um marmanjo com roupa de Pato Donald dando boas vindas às crianças.

Dá pra imaginar uma fantasia de Pato Donald nos anos 80, né? Mais assustadora que um boleto a pagar.

Ela quis correr, ela chorou. ela esperneou querendo ir embora, mas sua mãe não deixou.
Ficou ao lado dela falando "Querida, olha bem. Olha bem certinho pra ele."

Ergueu a cabeça da filha e a obrigou a ver o medo de frente.
"Consegue ver, filha? É só uma pessoa fantasiada."

Ela olhou, desconfiada.
"Olha com calma até perceber que é só uma pessoa fantasiada."

Ela percebeu. Parou de chorar.
Nunca mais teve medo de fantasia nenhuma.

--

Com a quantidade de imagens minuciosamente calculadas ao nosso redor, é normal ficar intimidado.

Por isso é importante lembrar o quanto é bom sorrir grandão, ainda que nosso dente seja torto.
Não porque fica lindo na foto, mas porque é gostoso.

Tudo bem querer compartilhar uma alegria que não é perfeita.
Em tempos de alegria fabricada, ostentação de verdade é ter orgulho de ser feliz com pouco.

Tem gente sarada e saudável e bem sucedida e em Paris toda semana? Tem sim.
Mas são só pessoas fantasiadas.

Olha bem que você percebe. Não precisa chorar não.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Enganei o bobo na casca do ovo

Quem disse que desenho animado não é ciência?  Bem, ninguém disse isso, mas eu me surpreendi quando fiquei sabendo que um dos meus clichês preferidos de desenho infantil tem a ver com um prêmio Nobel.  Lembra quando o Tom, do Tom e Jerry - ou qualquer outro desenho da época - via um ovo chocar e o pintinho que saía de dentro o chamava de mamãe, e o seguia por todo lugar? Isso aconteceu com um cientista chamado Konrad Lorenz, que estudava biologia, psicologia e o que mais tivesse pela frente, e que um dia, tal como o Tom, viu chocar um ovinho de ganso. Bem, o histórico de Lorenz não era muito bom (com alguns estudos voltados a descobrir se "híbridos germânico-polacos" tinham a mesma capacidade de trabalho que ditos "alemães puros", aquele nazisminho básico). Ainda assim, o ganso lhe deu uma oportunidade de ressignificar sua obra, porque assim que nasceu, começou a seguir o cientista alemão. O cientista não tinha penas, não tinha os dedos dos pés grudados (que eu saib...

Dando sopa

Às vezes me sinto a pessoa mais influenciável do mundo. Estava voltando da faculdade e tentando ler um livro enquanto o ônibus chacoalhava de lá para cá. Na história, pra demonstrar a pobreza do personagem, o autor fez questão de fazer constar que ele só come sopa, em todas as refeições. Uma das cenas descrevia com riqueza de detalhes a sopa que o rapaz comia: rala, com poucos pedaços de frango, arroz do dia anterior e algumas batatas picadinhas. A intenção era despertar piedade do personagem. O efeito foi o de me deixar morrendo de vontade de comer sopa. -- Em pleno verão, bater na porta dos vizinhos mais amigáveis perguntando se eles tinham sopa não era uma opção - e sim, se fosse inverno eu teria cara-de-pau suficiente de fazer isso.  A solução foi caminhar até um hipermercado perto de casa, o único lugar aberto naquele horário. Talvez eu achasse sopa em lata por lá. -- Pelo menos quinhentas pessoas se amontoavam na entrada do supermercado. Pessoa...

Zombeteiro

Nada é mais cafona em pleno ano de 2025 do que querer um sentido pra vida. Eu não devia falar isso em voz alta, porque meu emprego literalmente é fazer as pessoas acreditarem que algum sentido deve existir e aí passar duzentas sessões correndo atrás disso.  É uma profissão que, para os ingênuos, é muito bonita e faz muito sentido.  Bobagem. Eu gosto de ser terapeuta e acredito de verdade que algum bem eu devo fazer pros meus pacientes, mas esperar sentido disso? Cafona.  O sentido de qualquer trabalho é sair do trabalho e não fazer nada. -- A vida mais sem sentido talvez seja a com mais sentido: ficar aqui por um tempo, trabalhar um tanto, comer algumas coisas gostosas e ocasionalmente passar a mão num gato. Depois, pendurar as chuteiras, sem culpa nenhuma, e dormir pra sempre.  É o verdadeiro paraíso.  Nunca pensei "que ódio, vou tirar uma sonequinha depois do almoço" ou acordei pensando "que experiência horrível essa de me desacoplar da vida por uns minutinhos...