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Em semi-círculo

Você já assistiu essa cena:
Um educador bem intencionado, que quer que seus estudantes se engajem um pouco mais, junta todos eles numa sala e avisa:
"Hoje a aula vai ser diferente!", fala como se isso fosse algo que os alunos gostam de ouvir, "por favor, façam um semicírculo."

Depois de meia hora de gente arrastando cadeiras, ele decide que é hora de começar.
"Hoje nós vamos discutir uma questão polêmica. Aborto!"

Vinte minutos depois, começa a terceira guerra mundial.

--

Já estamos tão acostumados com isso que parece que o bate-boca é parte essencial de qualquer discussão.

Talvez o erro seja estarmos tentando avançar logo para a questão polêmica, sem olhar para o que vem antes dela (justamente onde podem haver mais pontos de convergência entre os dois lados da conversa).

Ser a favor ou contra a legalização do aborto (ou da maconha, ou reforma trabalhista, o assunto que for) é a ponta de uma lança muito comprida. Muitas perguntas precisam anteceder essa. Não adianta - mesmo com as melhores intenções - juntar pessoas para discutir aborto sem antes discutir profundamente sobre temas muito mais básicos do que ele, como a liberdade individual, liberação sexual, o papel da mulher na sociedade...

Mas a gente pula etapas, e quando vê... a discussão complexa que um tema como polêmico requer vira uma briga infantil com gente gritando "Assassino de crianças!" de um lado e "Você odeia as mulheres" do outro.

Temos pressa demais para chegar no final das questões, e não querer perder tempo com o básico só atrapalha nossa capacidade de empatia.

Até uma discussão precisa de tempo e preparo para começar.
Se botar uma criança com bicicletas de rodinhas pra fazer manobras radicais, o tombo é certo.
E olha, pode até ser divertido de assistir... mas não vai ser produtivo.

--

Lembro de uma discussão que tive em sala de aula, ainda na faculdade de psicologia.

Uma aluna evangélica fez alguns comentários preconceituosos bem primários sobre homossexualidade.

A professora, um gênio, doutora pela USP, ativista na área há décadas, tentou argumentar. Um argumento de cá, uma resposta de lá, e... a professora não aguentou.
Mandou a menina embora da sala. A turma, que estava em peso do lado da professora, murchou. A atitude só serviu pra reforçar a ideia de que quem é liberal é intolerante.

Acontece. Mesmo uma pessoa muito preparada acaba perdendo a cabeça.
Uma pessoa super educada e capaz de aprofundar-se nos assuntos a que se dedica não é obrigada a perder tempo escutando argumentos de gente que não quer ouvir...

Mas, se não for pra ouvir os argumentos do outro lado, pra quê entrar num debate?

--

Só existe um modo de sobreviver ao Método SuperPop de Abordagem a Assuntos Polêmicos, e é tratar o outro lado com a paciência e a didática de um professor de jardim de infância.

Deixar o outro lado berrar um pouquinho e responder, na voz mais calma do mundo, um argumento extremamente simples, apelando pros fundamentos mais básicos da questão. Pelo menos você aparenta ter um pouco mais de classe. 

Ser um pouco mais frio e condescendente, tirando o elemento emocional da conversa, parece ser errado, ainda mais quando estamos falando de um assunto que mexe muito conosco. Mas só assim se coleta o benefício de conseguir permanecer plácido enquanto o outro lado esbraveja sozinho até conseguir perceber, sozinho, que está sendo ignorante.

Senão é o Jean Willys cuspindo no Bolsonaro tudo de novo. 
Catártico, mas superficial.

--

Saber dar um passo para trás e fazer a pergunta por trás da pergunta é uma das habilidades mais importantes de se aprender na vida.

Conter o impulso de erguer a voz e perguntar para si mesmo "O que eu quero com essa discussão?".
É ganhar o argumento? É promover um ponto? É que a outra pessoa deixe de te ver como um inimigo? É parecer malvado?

Com essa resposta nas mãos, você vai saber direcionar seu argumento para onde você deseja, em vez de para onde a emoção manda.

Se o outro lado ainda assim não quiser te ouvir... Tente ignorá-lo.
Se não der... Desce a porrada. Violência mesmo. Conflito nem sempre é tão ruim assim.

Depois marque um novo debate. 
Dessa vez, sobre a importância da paz.

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