Pular para o conteúdo principal

Está vindo

Quem passa a vida pulando entre uma cordinha de sanidade mental e outra, como um Tarzan tentando não cair num matagal de loucura, sabe de duas coisas: um, a próxima crise sempre vem; e dois, você pode prevê-la.

Os sinais são claros.

Você começa a sentir uma coisa que não é bem a crise, mas sim o prenúncio da crise, como uma dorzinha no pescoço precede uma crise de enxaqueca.
Fecha os olhos e enxerga, de leve, a imagem de si mesmo na cama, como se já estivesse com o pensamento de terror ao pensar em levantar no outro dia - mas o pensamento ainda não está lá.  Você só tem a imagem dele.
Sente o seu cheiro. Escuta seus passos.

A crise vem, você sabe que ela vem.

--

Os pensamentos negativos surgem e desparecem como os faróis de um carro que cruza o seu caminho à noite. Sussurros se divertem ao lhe torturar dizendo "está tudo dando errado" no seu ouvido pra depois sair correndo.

E você ainda está bem.
Você está funcionando, você ainda consegue acreditar que o próximo dia pode ser bom.

Mas a crise vem, você sabe que ela vem.

--

Você tenta fazer algo a respeito.

Tenta agendar uma saída com os amigos, uma corrida no parque, um macarrão com queijo e um copo de vinho, qualquer coisa que tire a sua cabeça da sensação de que a qualquer momento um avalanche vai acontecer te soterrando em toneladas de depressão acumulada.

Tenta dizer pra si mesmo "coisa da minha cabeça". Tenta racionalizar e pensar que, quem sabe, perceber que esses sinais todos são sinais pra você se controlar um pouco mais e evitar que a crise venha. Não é pra isso que serve aprender a ler os sinais?
Ainda assim, você se prepara.

Porque a crise vem, você sabe que ela vem.

--

E você resiste.

Pega um livro e folheia como se conseguisse se enganar que está lendo.
Escova os dentes, toma um banho. Evita olhar demais o espelho, pra não começar a se achar uma pessoa desprezível ainda.
Ouve uma música, joga paciência. Tenta ganhar tempo.

Porque a crise ainda não começou, mas você sabe que ela vem.
E ela está vindo.

Pelo menos não vai ser de surpresa.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Enganei o bobo na casca do ovo

Quem disse que desenho animado não é ciência?  Bem, ninguém disse isso, mas eu me surpreendi quando fiquei sabendo que um dos meus clichês preferidos de desenho infantil tem a ver com um prêmio Nobel.  Lembra quando o Tom, do Tom e Jerry - ou qualquer outro desenho da época - via um ovo chocar e o pintinho que saía de dentro o chamava de mamãe, e o seguia por todo lugar? Isso aconteceu com um cientista chamado Konrad Lorenz, que estudava biologia, psicologia e o que mais tivesse pela frente, e que um dia, tal como o Tom, viu chocar um ovinho de ganso. Bem, o histórico de Lorenz não era muito bom (com alguns estudos voltados a descobrir se "híbridos germânico-polacos" tinham a mesma capacidade de trabalho que ditos "alemães puros", aquele nazisminho básico). Ainda assim, o ganso lhe deu uma oportunidade de ressignificar sua obra, porque assim que nasceu, começou a seguir o cientista alemão. O cientista não tinha penas, não tinha os dedos dos pés grudados (que eu saib...

Dando sopa

Às vezes me sinto a pessoa mais influenciável do mundo. Estava voltando da faculdade e tentando ler um livro enquanto o ônibus chacoalhava de lá para cá. Na história, pra demonstrar a pobreza do personagem, o autor fez questão de fazer constar que ele só come sopa, em todas as refeições. Uma das cenas descrevia com riqueza de detalhes a sopa que o rapaz comia: rala, com poucos pedaços de frango, arroz do dia anterior e algumas batatas picadinhas. A intenção era despertar piedade do personagem. O efeito foi o de me deixar morrendo de vontade de comer sopa. -- Em pleno verão, bater na porta dos vizinhos mais amigáveis perguntando se eles tinham sopa não era uma opção - e sim, se fosse inverno eu teria cara-de-pau suficiente de fazer isso.  A solução foi caminhar até um hipermercado perto de casa, o único lugar aberto naquele horário. Talvez eu achasse sopa em lata por lá. -- Pelo menos quinhentas pessoas se amontoavam na entrada do supermercado. Pessoa...

Zombeteiro

Nada é mais cafona em pleno ano de 2025 do que querer um sentido pra vida. Eu não devia falar isso em voz alta, porque meu emprego literalmente é fazer as pessoas acreditarem que algum sentido deve existir e aí passar duzentas sessões correndo atrás disso.  É uma profissão que, para os ingênuos, é muito bonita e faz muito sentido.  Bobagem. Eu gosto de ser terapeuta e acredito de verdade que algum bem eu devo fazer pros meus pacientes, mas esperar sentido disso? Cafona.  O sentido de qualquer trabalho é sair do trabalho e não fazer nada. -- A vida mais sem sentido talvez seja a com mais sentido: ficar aqui por um tempo, trabalhar um tanto, comer algumas coisas gostosas e ocasionalmente passar a mão num gato. Depois, pendurar as chuteiras, sem culpa nenhuma, e dormir pra sempre.  É o verdadeiro paraíso.  Nunca pensei "que ódio, vou tirar uma sonequinha depois do almoço" ou acordei pensando "que experiência horrível essa de me desacoplar da vida por uns minutinhos...