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Pra quê serve a adolescência?

Nem todo choro é igual.
Existe aquele choro comum, um choro de cotidiano, pras angústias do dia-a-dia, e existe o choro sentido, vindo do fundo da alma.

Esse último é reservado para momentos de dor profunda que há de se guardar por muito tempo, ou para dores que estão guardadas há tempos e saíram do guarda-roupas pra arejar.

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Esse choro sentido, quando vem de olhar pra trás, quase sempre é de alguma rejeição profunda de infância ou... de alguma coisa superficial da adolescência.

Dor de infância a gente respeita. Quer dizer, pra quê dar mais porrada em uma criança que está ali dentro de um adulto, sofrendo?

As de adolescência não.
"É bobo falar disso", meus pacientes dizem antes de contar do pé na bunda que sofreram aos dezessete e que não conseguiram superar.

"É um sonho irrelevante", eles falam, quando passaram a noite andando nus pelo colégio em que estudaram e sendo ridicularizados.

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No fundo, no fundo, temos a ideia de que adolescentes são inúteis.

Eles não servem para muita coisa: comem muito, reclamam muito e cheiram mal. Não sabem controlar o próprio corpo e falam alto demais. 

Se você disser que não gosta de crianças, vai receber mais desaprovação pública que o governo do Temer, mas diga que não gosta de adolescentes e apenas escute "Aborrecentes, né?".

Nem os adolescentes gostam de adolescentes. 
Até quem já saiu da fase olha pra quem foi naquele tempo e fala "Puta merda, que franja horrível eu tinha, Como eu era sem noção."

Mas, assim como uma criança interior mora em cada um de nós, um adolescente incômodo está ouvindo a música mais dramática possível, no último volume, em algum quarto do nosso coração.

E, pra que a gente consiga aguentar esse barulho... Só arranjando um jeito de amá-lo.

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Se a infância é a fase da descoberta, a adolescência é a fase da vergonha.

Temos vergonha da nossa pele, temos vergonha da nossa voz.  Achamos que somos o centro do universo e temos pressa de mudar. 

Essa vergonha e sensação de reprovação constante é muito útil, porque impulsiona o pensamento de "Eu vou provar pra eles!" que faz uma pessoa chegar longe.

Depos disso, é uma vida inteira tentando consertar nossos defeitos de adolescência, pra depois de velhos pensarmos "Eu era feliz e não sabia". 

A única coisa boa de envelhecer é perceber que você não precisa sentir vergonha de si. 
Pra chegar nesse ponto, só elaborando bem a própria adolescência. Isto é, lembrando das vergonhas da época, olhando para como cresceu e lembrando que não, isso não é bobo.

E, se for o caso, deixando aquele choro sentido correr.

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Um adulto sem força pra viver é um adolescente que ainda está dando ouvidos às críticas que escutou. Nada recompõe mais uma pessoa abatida do que assumir como qualidade o que, quando jovem, ouviu dizer que era defeito.

Com generosidade, dá pra perceber que, justamente naquilo que a gente não tentou consertar, melhoramos muito. Que merecemos amor, mesmo ainda sendo desengonçados.

Que crescer é inevitável e bom, mesmo quando nos sentimos (e somos!) inadequados.

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De uma fase com tantas mudanças, só sai bem quem aceita que vai seguir sempre mudando. Cresce de verdade aquele que permanece adolescente. 

Sim, a adolescência é uma fase irritante e transitória, mas mudar é irritante mesmo - e não estar em transição é estar morto.

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