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O que as coisas sugerem

Faz um mês e meio que eu estou morando em algo que eu posso considerar "o meu apartamento".
Quer dizer, é alugado e é dividido, mas fazia muito tempo que eu não morava em um lugar em que eu não precisasse marcar as paredes com urina pra marcar propriedade.

Até agora, foram uns tempos alugando quarto e dois anos morando no sótão do consultório, um lugar agradável e ameno onde a temperatura média é setecentos e vinte graus. Foi bom enquanto durou.

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Já morei sozinho antes disso, mas faz tempo. Agora eu divido o apartamento com uma colega dos tempos da faculdade, a Amanda.

Recomendo a todo mundo morar sozinho pelo menos uma vez da vida, pela liberdade e pelo autoconhecimento.  Depois disso, recomendo a todo mundo morar com a Amanda pelo menos uma vez na vida, porque ela faz um ovo mexido muito bom.

O legal de se sentir responsável por um lugar é que até limpar a casa vira uma rotina gostosa, já que você tá cuidando do que é seu.

Minha tarefa preferida é lavar louça, que é divertida pela recompensa imediata de ver o serviço pronto, seguida por lavar roupa, que é basicamente jogar a roupa na máquina e ficar no computador por duas horas e meia esperando a máquina fazer o serviço e falando "Já respondo, tô lavando roupa..." pras pessoas no Whatsapp.

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A rotina da vida adulta cria umas relações interessantes com as coisas.

Meu micro-ondas, por exemplo, apita sozinho na função Pudim. Tô ali, na cozinha, cuidando da minha vida, e o micro-ondas (que horrível escrever desse jeito) sai da sua condição de objeto inanimado pra me gritar PUDIM e me lembrar da importância dos prazeres na vida.

Nunca fiz pudim nele, mas eu aceito o recado e vou comprar um na padaria.

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A quantidade de atitudes humanas que meus objetos tem tido só seriam justificáveis se eu estivesse com uma severa esquizofrenia, que é um diagnóstico que eu prefiro deixar quietinho por enquanto.

Não vou nem levar em conta as sugestões do corretor do celular (manda uma foto do seu pai, diz ele), que eu já considero manifestações do meu inconsciente e que me fazem pensar duas vezes no que eu mando pras pessoas.

Prefiro acreditar que meus objetos me dão conselhos, mesmo.

Meu celular me assusta todos os dias mudando o horário exibido pra uma hora mais tarde. Depois do mini ataque cardíaco por achar que estou perdendo um compromisso, eu vou conferir e vejo o erro: O celular mudou o fuso horário pra Fernando de Noronha.

Todo. Santo. Dia. O fuso muda pra Fernando de Noronha.

Meu celular é um objeto de alta tecnologia e, como tal, sabe das coisas. Por isso, assim que eu tiver o orçamento, vou obedecê-lo.
Comendo pudim.

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Agora, de todas as manifestações que meus objetos inanimados tem, nenhuma bate a de quando eu deixei o celular desbloqueado no bolso e o movimento das minhas pernas, sozinho:
1 - Abriu o aplicativo do Whatsapp;
2 - Foi nas configurações de perfil;
3 - Clicou em "Trocar foto de perfil";
4 - Selecionou, de todas as fotos da galeria, um meme do cara de chapéu mostrando a piroca;

Foram dias com essa foto lá, exposta pra todos meus amigos e pacientes, até meu irmão me mandar uma mensagem perguntando que porra era aquela.

Se o microondas quer que eu aproveite a vida comendo pudim e o fuso horário quer que eu aproveite a vida indo pra Fernando de Noronha, o que o meme da piroca na foto do perfil está querendo me sugerir?

Fica em aberto.

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