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A favor de ser trouxa


Eu sempre tive uma fascinação por aquelas pessoas que fazem todo mundo cair a seus pés. As Frida Kahlos, Marylin Monroes e Marlon Brandos do mundo, aquelas pessoas que fazem todo mundo se apaixonar por elas enquanto elas, impassíveis, estão nem aí.

Quando um amigo qualquer reclamava que tinha alguém no seu pé o tempo todo, como se isso fosse a coisa mais chata do mundo, meus olhos brilhavam de admiração. Quanto poder, né? Ter alguém te querendo muito enquanto você faz cara de blasé e prefere ficar em casa cortando a unha. Eu, trouxa por formação e vocação, morria de inveja.

"Ah, mas é meio chato, não rola, sabe?", dizia a pessoa independente e feliz.
"Dá uma chance pra ele! É um chato bonzinho!", eu respondia, advogando por nós trouxas.

Afinal, eu sempre ocupei o papel de estar no pé dos outros, e achava isso muito, muito chato.
Não conseguia entender a capacidade de alguém negar um amor que estava ali, tão de graça.

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Precisei de um bom tempo de trouxice (suficiente pra uma faculdade bem longa, pós-graduação e mestrado), pra chegar num ponto de exaustão.

Algo perdeu o encanto. Até aquelas pessoas que, em outro momento, eu mataria pra ter uma chance, chegavam perto e me davam vontade de sair correndo pra casa, pra ficar quieto e sozinho, lendo um livro que eu já li antes e coçando a orelha.

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Mas adivinha o que acontece quando você chega nesse ponto? TODO MUNDO QUER NAMORAR CONTIGO.

Que tipo de sensor é esse, de pegar a pessoa mais machucada e aversa a relacionamentos que pode encontrar e falar "É esse!", e investir tudo o que pode?

Como sempre fui eu do outro lado desse cabo-de-guerra, fiquei feliz. Quer dizer, sair do papel de pessoa que quer muito ter alguém ao seu lado só pode ser uma evolução, certo?

Acontece que ser a pessoa indisponível pode até te dar mais poder, mas não te dá mais prazer.
Não é só auto-suficiência. Você quer sentir o contato próximo e o amor de alguém, mas alguma coisa te impede, como uma azia violenta que te dá ânsia só de olhar pro seu prato favorito.

E quando você se força a baixar um pouco a guarda... Vem uma gastrite violenta.

Tá ruim, sai de perto, preciso de ar.

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Pode ser muito divertido experimentar esse poder.
Aprendi muita coisa vendo a minha trouxitude refletida no outro.

Eu, que sempre me dobrei em cinco pra tentar agradar quem estava comigo, me surpreendi com como você pode ser cuzão e ainda assim ser atendido.

"Te trouxe flores", diz a pessoa, feliz, fazendo o papel que devia ser o meu.
"Ah, valeu. Eu tenho um pouco de rinite.", eu respondo, escroto.
"Nossa, desculpa, eu troco, eu trago outras coisas, quer chocolate?"

Ei, eu conheço esse sentimento de pedir desculpa por ter feito algo legal! Que coisa besta!

"Não, não, tá bom.", eu respondo, sorrindo.
"Nossa, mas eu vou te recompensar por essa... Não sabia que você não podia com flor."
"..."
"Desculpa, tá?"

Jesus Cristo, eu já fui assim.

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Ser indiferente ao carinho alheio não é sinal de força. É casca grossa, calo, fachada.
Tudo coisa de quem está machucado demais e não está disposto a se arriscar outra vez. Fica indiferente ao amor quem tenta se curar dele. Fica com azia quem se recusa a digerir a dor dos amores que deram errado.

Porque o amor dói e te faz de besta, mas é justamente isso que faz ser muito gostoso quando ele é retribuído.

É ser trouxa de vez em quando que faz encontrar um amor dar aquela sensação de ter ganho na loteria.

Exigir sair por cima toda vez que está com alguém é uma defesa que tira toda a graça de viver. Se privar de um sentimento é se privar de todos.

Há uma grande lição em aceitar que perder o poder às vezes pode ser bom. Você exercita um pouco o masoquismo, volta a ter emoções novamente e lembra o motivo de ser tão gostoso amar.

Marlon Brando que me perdoe. Ser fatal é lindo no papel, mas ser trouxa não é tão ruim.

(Até você ser bem trouxa outra vez. Aí é uma bosta. Mas aguenta, quem quis amar foi você.)

Comentários

  1. Tudo é aprendizado. Nunca tinha pensado nisso como poder, mas como tapa na cara mesmo hahahah. Mas no sentido negativo da coisa...

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