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Aumentando o volume

Depois de um debate em sala de aula na faculdade, uma professora me chamou - uma professora incrível, que eu respeito muito até hoje.

"Flávio, não me entenda mal, tá? Mas eu já vi alunos brilhantes saindo da faculdade e não conseguindo emprego porque se expuseram demais nas aulas. Você revela muito de si, as pessoas se aproveitam disso. Toma cuidado, tá?"

Fiquei triste pensando no que essa professora deve ter sofrido na carreira dela pra fazer um gesto desses. Ela realmente estava tentando me proteger.

Mas eu, vindo do interior, quebrado, criado testemunha de Jeová, homossexual assumido e sem contatos na capital, ia ganhar o quê por me esconder?
Pra quem está por baixo no jogo, não adianta cuidar do personagem para parecer algo mais aceitável.

A gente sabe que o jogo não está ao nosso favor.

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Tentar acomodar as expectativas sociais nas nossas atitudes é - pelo menos no nível do raciocínio - um ótimo negócio: se a minha experiência de vida é considerada incômoda, eu escondo essa parte de mim e fica tudo bem.

Mas não fica. Esconder uma parte de si - qualquer parte, de uma sexualidade a uma opinião - enfia a gente numa panela de pressão emocional.

"E se descobrem que eu sou gay?"
"E se ficam sabendo que eu tenho passagem pela polícia?"
"E se descobrem que, na verdade, eu não sou esse trabalhador que eu mostro pro mundo, e gosto mesmo é de ficar tomando cerveja no bar?"

E toma gasto energético pra tentar se esconder.

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É questão de transformar a vergonha em orgulho. Quando a gente revela de verdade o que é, ganha a posse da nossa história. Fofoca de coisa que todo mundo já sabe não tem força.

Contemos nossa história antes. Mostremos nosso defeito como bandeira. Quanta coisa a gente não aprendeu sendo diferente de todo mundo?
Pra depois querer jogar isso fora, pra parecer igual a todo mundo? Só porque um monte de gente igual não suporta uma diferencinha?

Eles não vão gostar da gente de nenhum jeito.
Adianta perder o próprio poder por causa disso?

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O mais duro de tudo é que a bandeira da ignorância tá lá, hasteada, com um monte de boçais morrendo de orgulho dela e chamando a gente de errado!

E qual a reação que muitos tem? De se esconder mais. De justificar. De "não é bem assim".

Frescura. Melhor bancar o que somos.

Nós somos, sim, os subversivos. Nós somos, sim, os que querem destruir a família tradicional - porque sabemos que esse conceito de família não faz bem a ninguém. Somos os que querem que transexualidade e homossexualidade sejam consideradas coisas normais, sim - porque são! Os que acham que religião demais faz mal - porque faz!

Somos os viados, os boêmios, os malucos, os que não gostam das coisas do jeito que estão e acham que tem mais é que mudar tudo mesmo.

Nós temos a opinião que temos porque apanhamos na cara, porque sofremos com a opinião oposta, porque estudamos o suficiente pra achar o que achamos.

Pra quê seguir tentando se explicar tanto, e tentando se justificar pra quem acha que direitos humanos e arte são coisas de pedófilos comedores de criancinha?

Diminuir nossa opinião é jogar nossas histórias no lixo. É abrir mão da potência que adquirimos com muita dor.

E daí que estão reclamando do nosso barulho? É hora de aumentar o volume.

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