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O fofo

Minha amiga me ligou revoltada.

Ela tinha arranjado um cachinho dos tempos de ensino médio, um menino que estava doido por ela. Ela, recém-saída de um relacionamento mal-sucedido, não estava dando muita corda.

O menino insistiu.

Mandava mensagens românticas, três bons dias por dia, perguntava como estava, oferecia massagem - todo grudento oferece massagem - e falava todos os dias que queria uma chance de levá-la para sair.

Quanto mais ela dizia não, mais ele mandava bom dia. O recorde foram seis bons dias em duas horas.

"Ele não deve ser tão ruim! Ele é fofo!", eu aconselhei.

Minha amiga, tadinha, esqueceu o fato de que meus conselhos são piores do que uma caxumba que desce pras bolas e saiu com ele.

Imagina, se o menino não foi um monstro?

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Não, não foi. O rapaz foi um anjo com ela. Passou horas ouvindo ela falar, elogiando a roupa, os olhos, o cabelo, a atitude.

Foi o genro que a mãe da minha amiga pediu pra eu ajudar ela a encontrar.

No dia seguinte, ela me contou com uma esperança que poucas vezes eu tinha escutado em sua voz:

"Acho que eu vou dar uma chance pra ele. Não senti muita firmeza, mas ele me tratou tão bem!"

Marcaram um segundo encontro.
Já num clima romântico, marcaram para sair com um casal de amigos em comum.

Eu já estava exultante, torcendo pra dar zebra e minha amiga ficar com o menino que tanto tinha desprezado.

(Minha vida romântica atual tem sido vivida através da vida dos meus amigos. Meu coração, hoje, só tem um daqueles arbustos de filme de faroeste girando em falso. Quando alguém tem uma história interessante, eu acabo me empolgando.)

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No dia do encontro, atendi o telefone e a voz dela atingia decibéis nunca atingidosp ela voz humana antes:

"Você acredita que eu tava pronta, maquiada, esperando ele me buscar, e ele me manda mensagem falando que estava cansado e não ia? Que, se eu quisesse, podia ir na casa dela pra gente dormir junto?"

Não sei quem estava mais frustrado, ela ou eu. Eu tinha botado tanta fé naquele moço, ele me dá uma dessas?  Deu vontade de ligar pra ele e dar uma bronca.

"Se a sua estratégia é a fofura, amigo, seja fofo até o final. Se você for dar uma de difícil na última hora, vai morrer na praia. Na areia fofa, como era pra você ter sido."

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"Ah, mas ele é um fofo com momentos de cuzão. Continua fofo!"

Não é uma questão matemática. É uma questão de consistência.

O que mantém muita gente em relacionamentos com cuzões (estou usando essa palavra porque é o termo técnico utilizado pela minha linha teórica favorita, a psicanálise de boteco) é que o cuzão não é sempre cuzão.

Inclusive, o cuzão consistente merece algum respeito. Ele é estúpido sempre, ninguém espera algo diferente.

O pior cuzão é o que consegue peidar cheiroso de vez em quando, o cuzão ocasionalmente fofo. Ele dá suas mancadas, mas depois te dá uma noite ótima, um chamego no pescoço inigualável, um afeto geralmente reservado a filhotinhos de Golden Retriever.

De novo, o problema não está no defeito: está na inconsistência.

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Toda essa história e os palavrões todos são para defender a importânia de alguma consistência emocional.

Todo mundo tem seus momentos de oscilação, mas o caráter e a evolução acabam sendo avaliados pela média geral - e essa média depende muito de como você age com constância.

Uma pessoa não é boa por ser boa o tempo todo, nem por ser incrivelmente boa tudo de uma vez.

Uma pessoa é boa quando é consistentemente boa. Ela não precisa ser perfeita, mas o ideal é que você consiga apostar que, a qualquer momento, você pode aparecer de surpresa e flagrá-la sendo boa, e que a margem de erro não seja tão grande.

É aí que você consegue confiar nela, quando sabe bem que tipo de coelho sai daquele mato.

Água mole em pedra dura só fura enquanto continuar sendo líquida.

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