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Regrinha de ouro

Era meu aniversário.

Uma amiga apareceu na festa exibindo a namorada nova, toda orgulhosa. Fui puxar papo:

"Ah, você é a famosa fulana?"

Ela disse que sim, a famosa fulana era ela.

"Você é bonita demais pra minha amiga, viu? Ainda dá tempo de fugir!", eu disse, rindo de um jeito que só dá pra transcrever com "kkkkkkk", de tão escroto.

Nem percebi que podia estar ofendendo alguém.

--

Foi só umas duas semanas depois que eu fui perceber que minha amiga estava meio distante e tive um estalo. Liguei pra ela na hora.

"Puta merda, me desculpa por ter falado aquele negócio na minha festa! Eu juro que não tive a intenção! Você é linda e merece muito ser amada por quem você quiser!"

Eu esperava uma bronca, um perdão, mas o que veio foi um "ahn?":

"Que negócio? Nem tô lembrando..."

A sorte de falar merda o tempo todo é que as pessoas começam a desconsiderar as merdas que a gente fala.

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Mas não dá pra abusar da paciência de ninguém.

Eu já tinha percebido faz algum tempo esse meu hábito chato de colocar os outros pra baixo. Sutilmente, piadinhas, e nunca com desconhecidos - só com gente que eu realmente gosto.

Coisas pequenas, nada humilhante, mas aquela pinicadinha desnecessária, tipo "A gente tá comendo demais, né? Cê pensa em fazer uma academia?", ou "Que legal que você não lavou a louça antes de eu chegar, tô me sentindo super especial".

Boçal à beça, mas eu nunca disse que eu era super legal.

--

Foi só falando disso na minha própria terapia que me caiu a ficha óbvia.
Por que é que eu só agia assim com gente que eu amo?

Porque eu fazia igual comigo mesmo.

Quando alguém fica perto demais, é fácil confundir as barreiras de onde começa a outra pessoa e onde termina o eu.

Aí, no meu caso, aquela característica quase fofa de autodepreciação assume a forma cruel que verdadeiramente tem.

É muito fácil parecer legal se botando pra baixo.

Te deixa mais aproximável. Soa genuíno. Não intimida.

As pessoas ficam mais confortáveis na sua presença... Até elas chegarem perto demais e sobrar depreciação para elas também.

--

É engraçado o caminho que isso tomou: eu só fui perceber o quanto é brutal o que eu faço comigo quando vi o que isso fazia nos outros. Até porque com o outro eu tenho dó, né?

Comigo é chinelada na cara, e tudo bem, o que é isso, se incomodar é frescura. Bola pra frente.

Só que isso não me dá direito nenhum de culpar o outro pela minha insegurança.
Não é culpa da minha amiga e da sua namorada bonita se eu fico completamente intimidado com alguém interessante ao meu lado.
Não é culpa do meu colega que come bastante se eu estou irritado com o tamanho da minha barriga.

--

Pois bem, vou começar a me tratar exatamente do jeito que eu acho que os outros gostam de ser tratados.

Vou acordar, olhar para a barriga no espelho e falar "Cada dia melhor!".
Vou tomar café na padaria encarando o rapaz bonito da mesa do lado.
Vou tirar cinquenta reais da minha carteira e entregar pra mim mesmo, porque eu mereço.
Vou lavar meu cabelo com L'oreal, porque eu valho muito.

E, de verdade, vou tentar me botar menos pra baixo.
Assim, quem sabe, eu consiga ser mais legal com as pessoas.

--

Agora, se eu virar daquelas pessoas com autoestima demais, insuportáveis de ter por perto... Alguém se importa de fazer um comentário bem maldoso ao meu respeito, pra eu deixar de ser besta?

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