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Workaholics

Estava num bar com uns amigos que vejo pouco e estava atualizando eles sobre a minha vida:

"Eu tô trabalhando quatorze horas por dia", eu falava orgulhoso, num tom calculado para gerar simultaneamente reações de "coitadinho dele!" e "uau, que homão da porra!".

Eu realmente estava exausto. Minha rotina era assim:
Paciente às sete e meia.
Oito e meia, eu corria pro meu outro emprego, fora da área, que por coincidência era bem pertinho de onde eu atendo.
Meio dia e trinta, eu engolia um ovo cozido como um emprego ruim engole seus sonhos, e ia atender outro paciente.
Voltava pro escritório e trabalhava lá até às seis. Depois, atendimentos até às nove da noite.
Aí, escrever e estudar um pouco pra não emburrecer de vez.

Parecia pouco, então comecei a acordar cinco e meia da manhã pra ir na academia, que é pra ser saudável.

--

Depressão é moda da estação passada. O mal do século é a exaustão.

Quem não está no trabalho, está no trânsito a caminho do trabalho, ou fazendo um curso pra melhorar no trabalho, ou tendo um trabalhão pra conseguir conciliar trabalho com um momentinho de prazer.

Ninguém mais para.

Sei lá de que jeito, ficamos com a impressão de que só é bem sucedido quem está trabalhando vinte e quatro horas por dia, ou que sucesso e felicidade são coisas que você precisa trabalhar duro pra conquistar e seguir trabalhando para manter.

Aí saímos por aí, exaustos, desfilando o orgulho que temos de viver como escravos.

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Até dormir virou obrigação.

Manda logo um Rivotril, que é pra eu cair no sono logo e tirar essa tarefa da frente de uma vez.

Não é à toa que tem tanta gente com insônia.
A gente procrastina as coisas que não quer fazer, as coisas que a gente só faz por obrigação.

Enquanto dormir for tarefa e não prazer, vamos seguir assistindo mais um episódio de qualquer coisa antes de fechar os olhos.

E, depois de não dormir, enfia café goela abaixo, que a produtividade não pode parar.

--

Está tudo na palavra: Workaholic.
Viciado em trabalho. Viciado. E nenhum vício é bonito. Quer dizer, uma pessoa fumando num filme em preto e branco é estilosíssimo, então vou usar outra palavra: nenhum vício é saudável.

Uma pessoa viciada em trabalhar pode ser tão doente quanto uma pessoa viciada em beber.

O problema é que os vícios são lentos
Ninguém bebe uma vez e sai quebrando todas as mesas do bar, xingando quem vê pela frente, condenado a uma eternidade de vício.

Criar um vício é um processo que demora e se constrói aos poucos, misturando o prazer com a ilusão de controle. A ilusão de prazer. A ilusão de vantagem.

As mesmas ilusões que alguém sente ao trabalhar 15 horas por dia.

--

Engraçado que quando eu larguei o emprego que me dava alguma segurança financeira (e só larguei depois de juntar dinheiro suficiente pra manter essa segurança por um tempo enquanto me dedicava à clínica), meu trabalho melhorou muito.

Surpreendentemente, as pessoas preferem ser atendidas por uma pessoa acordada e atenta em vez de um psicólogo com olheiras imensas, bocejando o tempo todo e com a disposição de um zumbi.

Com muito menos coisa pra fazer, meu trabalho finalmente prosperou.

Sucesso!

Aí, antes que eu me desse conta, tinha entupido minha agenda novamente, com horários estúpidos que ninguém aceitaria em sã consciência. Lá estava eu, exausto de novo.

Todo vício tem suas armadilhas.

--

O irônico da coisa é que a gente trabalha tanto em busca de uma sensação de sucesso, de completude, de chegar em algum lugar... sem ver que perceber isso é completamente impossível se você não para de trabalhar.

Sucesso só pode ser percebido a partir de um ponto de descanso, uma pausa em que você consiga ter perspectiva das coisas. Se você não descansa, seu sucesso é uma árvore caindo na floresta sem ninguém por perto: passa despercebido.

Sem contar que, se for reparar bem, sucesso mesmo é poder descansar à vontade.


Comentários

  1. Anônimo5:18 PM

    Pergunta/ sugestão de texto:
    Psicólogo costuma ter paciente favorito ? Aquele que parece mais legal de atender , por algum motivo...?
    E o oposto também, aquele paciente que dá vontade de desmarcar a sessão de tão difícil de lidar ?
    Ou no fim todos são vistos de forma igual?

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