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Soverte

Nunca erre uma palavra perto de mim. Eu tenho um apego infantil ao erro e não vou deixar de insistir nas piadinhas, por mais boba que a confusão tenha sido.

“Eu chamei a Marcela pra tomar um soverte”, diz alguém, tropeçando na palavra.

“SOVERTE?”, eu respondo, rindo.
“Ops, sorvete!”, corrige a pessoa rapidamente, antes de continuar. “E ela me falou que está perdeu todo o trabalho do mês quando o computador estragou.”

“Todo o trabalho do mês?”, eu finjo indignação, “Deve ter dado vontade de enfiar um soverte na testa!”

A pessoa ri amarelo, mas continua.

“Então, ela teve que explicar tudo pro chefe depois. Ela chegou a ficar quente, pingava suor!”

“Suor?”, eu não desisto, “Melhor tomar um soverte pra se refrescar, né?”

Eu sou insuportável.



Não é por mal. Essa coisa chata de se apegar ao erro e colocar os outros pra baixo é um hábito dos piores, mas não é algo que sai com a intenção de machucar ninguém.

Infelizmente, machuca.

Fiz um texto outro dia contando desse jeito de agir e bastante gente falou “Tá, muito interessante, mas como se livrar disso?”. Pois é, como efetivamente virar a chavezinha que critica os outros pra uma chave mais positiva?

Todo hábito começa em algum lugar – normalmente dentro de nós. E é olhando pra dentro que a gente consegue identificar o problema.

Qualquer pessoa que critica muito os outros tende a se criticar muito. Eu, por exemplo, não suporto errar uma palavra. A palavra é meu ofício e eu fico muito frustrado quando erro alguma coisa nesse aspecto.

Isso gera tanta pressão dentro de mim que, quando alguém erra também, eu preciso aliviar esse desconforto interno apontando para um erro de fora.

Quanto mais pressão interna para acertar, mais forte o mecanismo de se aliviar criticando o erro de quem está perto da gente.

Agora pense naquela pessoa que critica todo mundo, que sempre tem uma palavra mordaz sobre o peso, a aparência ou o comportamento de qualquer um que cruze o seu caminho.

Imagine o quão desconfortável ela deve estar.



Muito bem, mas de onde vem a autocrítica? Como parar de se colocar pra baixo também?

Toda voz interna já foi uma voz externa. Tudo o que a gente fala com a gente mesmo começou com algo que alguém já falou pra gente. Infelizmente, como somos cercados de muita negatividade, as vozes que a gente internaliza tendem a ser críticas também.

Por isso, ajuda muito identificar qual a origem dessas vozes. Tente identificar que tipo de críticas você faz a si mesmo. Você reclama consigo mesmo da aparência? É do tipo que não pode passar por um espelho sem achar um defeito? Ou você não se acha inteligente, e grita “Burro!” consigo mesmo toda vez que toda uma atitude errada?

Identificando qual o padrão da crítica, recorra ao seu passado: Quem te desaprovava por essa característica? Quem você gostaria de impressionar corrigindo esse aspecto da sua personalidade?

Simplificando: Quem você quer agradar quando tenta tanto assim ser perfeito?

Essa pessoa vale esse esforço todo?



Resolvendo mentalmente suas questões com essa(s) pessoa(s), é bem provável que você consiga se tolerar melhor por não ser perfeito.

Perdoar-se pode ser o melhor caminho para parar de criticar tanto a si mesmo. A vida melhora muito quando a gente entende que não vai acertar o tempo todo, e deixa de colocar tanta pressão para que todo mundo acerte.

Sem tanta pressão interior, não vai existir tanta necessidade de se acalmar apontando os erros dos outros.

Agora, se continuar tendo problemas com isso, me avise! A gente sai pra tomar um soverte e conversa a respeito.

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