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Suicídio e graça

Morro de inveja de quem sabe contar uma boa piada.

Eu sou pior do que uma pessoa que não é engraçada: eu sou uma pessoa que tenta ser engraçada, e nada é mais triste que isso.
Meu timing falha, minhas piadas não são fáceis de entender e minha dicção é pior do que a da Tatá Werneck depois de levar uma picada de vespa na língua.

Mas, como um bom tiozão em potencial, eu me esforço.

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Pouco depois de montar meu primeiro consultório, levei um golpe de uma sócia e cheguei a ficar sem ter onde morar.

Quase precisei desistir de tudo e voltar pro interior e morar com meus pais, mas tive amigos legais o suficiente pra me ajudarem a arranjar um lugar pra morar e um emprego que pagasse melhor do que os bicos que eu fazia na época.
Chacoalhei a poeira e segui em frente. Aquilo não ia me derrubar.

Eu já sabia que não ia gostar muito daquele emprego, mas se ele fosse o preço de seguir morando na cidade que eu escolhi e perto das pessoas que eu escolhi ter na minha vida, era ali que eu ia investir minhas energias.

O primeiro dia de trabalho foi massante, torturante, cansativo. "A gente se acostuma com qualquer coisa", eu repetia pra mim mesmo.

No final do expediente, fui dar uma caminhadinha pra espairecer. Telefonei pro meu então namorado tentando desabafar e, no meio da ligação, fui assaltado. Levaram meu celular, minha carteira com todos os meus documentos e o dinheiro que eu tinha recebido de adiantamento naquele dia.

Merda, né? Mas acontece. Bola pra frente.

No segundo dia, eu somei a frustração do trabalho bosta com o assalto, mas consegui enfrentar o dia tranquilamente. Só fiquei um pouco chateado que meu ex não ligou nem tentou entrar em contato de outra forma depois de ter me ouvido sendo assaltado.

Acabado o expediente, já que não tinha mais nada que pudessem me roubar, fui fazer outra caminhada.

Fui atravessar a rua e dei de cara com o meu namorado ficando com outra pessoa. Eu não consegui reagir: cumprimentei e voltei, caminhando calmamente, pro meu outro emprego.

Fui até a sala onde meus amigos estavam, perguntei se eles podiam conversar um pouquinho e caí no choro antes de terminar a frase. Eu soluçava, eu tremia, eu perdia a voz.

Eu nunca tinha desabado daquele jeito.

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Juntando os problemas todos com aquela depressãozinha marota que tá sempre à espreita querendo dar o bote, os meses seguintes foram tenebrosos.

A sensação era de fracasso em todos os aspectos. Eu estava sem grana, num emprego ruim, sem coragem pra sair na rua por medo de mais um assalto, sem perspectiva de mudança... e corno.

A vida estava muito, muito sem graça.

Foi aí que eu decidi me matar.

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Planejar se matar é muito mais difícil do que parece.
Eu não tenho armas de fogo, sou desajeitado com facas (sempre que tento cortar um legume acabo me machucando, se eu tentasse cortar os pulsos ia acabar fatiando uma cenoura por acidente), não sou daquelas pessoas que tem muito remédio em casa...

Me veio à mente me enforcar.
Dei uma olhada pela casa e notei como eu tinha dois problemas:
1 - eu não tinha corda
2 - nenhuma parte alta da casa tinha espaço pra amarrar uma corda com segurança.

Fiquei parado um tempo na porta do banheiro, olhando pro cano do chuveiro e imaginando se daria pra me matar arrancando os fios de luz dali e amarrando no cano mesmo.

Foi quando me ocorreu o pensamento de que, já que eu ia me matar mesmo, eu podia pelo menos passar um tempo fazendo tudo o que eu bem quisesse, sem me preocupar com as consequências.

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Tá, e o que é que eu sempre quis fazer que eu nunca tive coragem?
Bem... Eu sempre tive curiosidade de subir num palco. Já tinha feito muita análise até então pra associar essa vontade a um desejo infantil de atenção e um narcisismo, mas naquela hora isso não importava. Eu ia me matar mesmo, foda-se a análise.

Me cadastrei numa noite de open-mic num clube de comédia de Curitiba. A data era pra quinze dias depois daquilo.

Eu tinha quinze dias para pensar em algo engraçado e não me matar.

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Fiz pilhas e pilhas de rascunhos de coisas que me pareciam engraçadas, mas nada me parecia muito interessante. Acabei escolhendo a opção mais inócua de todas, uma brincadeira com como algumas pessoas tem carisma e outras simplesmente não tem.

Num trecho do stand up, eu comparava a Ivete Sangalo (com carisma) com a Claudia Leitte (sem carisma), e dizia como a Claudia Leitte podia doar medula óssea pra uma criança que ia ser acusada de golpe de marketing, enquanto a Ivete podia derrubar uma criança de um pŕedio que o comentário geral seria de "Eita, que molecona desastrada!".

Nada muito engraçado, mas servia.

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No dia da apresentação, duas amigas me acompanharam. Eu bebi um chope e fiquei torcendo pelo melhor.

Não era só uma questão de conseguir ser engraçado: minha vida dependia daquilo. No fundo, no fundo, eu tinha alguma esperança de que aquilo me desse alguma energia pra viver.

Subi no palco e parecia que eu estava fora do meu corpo, me assistindo. Não conseguia enxergar nada, com as luzes fortes na minha cara.

"Simplesmente faça", eu falei na minha cabeça, pra me motivar, e simplesmente fiz.

Vomitei as palavras uma depois da outra, vorazmente. Acabei meu texto e saí do palco.

No backstage, os outros iniciantes me olhavam com cara de "Sinto muito por ter sido ruim".

Eu só sentia alívio daquilo ter acabado.

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Minha amiga filmou a apresentação.
Eu nunca tive coragem de assistir o vídeo inteiro, mas o pouco que eu vi era eu metralhando palavras sem ritmo nenhum:

"Ahurhue ijiejr heruhrau a CLAUDIA LEITTE iahduahifua e MEDULA ÓSSEA ufduauifeui IVETE SANGALO uahiuahda CRIANÇA DA JANELA nfonfaeuf"

Ansioso, eu apresentei meus cinco minutos de texto em menos de dois. Não tinha nenhuma risada na plateia, mas também não dava pra entender absolutamente nada do que eu falava.

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E foi naquele dia que eu me tornei um comediante de stand up de muito sucesso e minha vida mudou!

Mentira. Eu nunca mais tive coragem pra fazer stand up novamente, mas também não me matei.

Segui me dando outras chances de fazer coisas novas. Fui estudar improviso, subi num palco mais vezes e fui tentar me expressar um pouco mais.
Aos pouquinhos, fui reencontrando a graça da vida.

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E foi aí, sim, que eu encontrei a receita da felicidade e nunca mais fiquei triste!

Mentira. Hoje mesmo foi um dia muito, muito difícil e levantar da cama foi um batalha - e dessa vez não tinha nenhuma tragédia pessoal pra botar a culpa. Só os mesmos monstrinhos internos de sempre botando suas caras feias pra fora.

Aí um colega do curso de improviso me convidou pra participar de uma noite num espetáculo junto com ele e... Bem, o que custa esperar mais quinze dias?

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Talvez esse seja o lance das pessoas engraçadas:  quem faz muito esforço o tempo todo pra tentar achar a graça da vida é porque sente, lá no fundo, que ela não tem graça nenhuma.

Mesmo assim, entre a desesperança e a graça, dá pra continuar vivendo.
A vida é mesmo uma piada.

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