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Três contos de Natal

1 - UM CONTO DE ABANDONO

Setecentos e cinquenta quilômetros de distância me separam da minha família, mas esse é um abisminho pequeno perto de como eu tenho me distanciado deles de uns tempos pra cá. Eu assumo a culpa, mas deixo acontecer. Esse distanciamento me parece necessário, porque na minha opinião a vida obedece essa sequência:
1 - Infância, em que seus pais são super heróis e você se sente culpado por tudo o que acontece de ruim na sua casa.
2 - Adolescência, em que você odeia seus pais porque deram um computador pro seu irmão enquanto você, que estudou de verdade, ganhou um tapinha nas costas.
3 - Jovem adulto, em que você reconhece  o trabalho que seus pais tiveram e passa a vê-los como super heróis novamente.
4 - Vida adulta de verdade, em que você percebe que é muito mais cômodo botar a culpa nos seus pais, que eles fizeram algumas cagadas mesmo e que você nunca vai perdoá-los de verdade por terem dado aquele computador pro seu irmão enquanto você realmente se esforçava pra ganhar um pouco de carinho.

Eu estou na fase de me distanciar pra economizar energia, mas Jesus me perdoe, como bate a culpa de decidir ficar em casa em vez de visitá-los no final do ano. Sim, eu ia passar metade do tempo brigando com eles e com vontade de chorar, mas não é disso que se trata o Natal?

Vou manter essa tradição viva por brigar comigo mesmo, depois de ingerir a quantidade absurda de besteira que eu comprei no supermercado ontem.
Depois, provavelmente, eu vou beber uma garrafa de vinho inteira e mandar uma mensagem de áudio no grupo da família falando "EO AMO MOITO TODOS VECÊS! QUERIA ESTAR AÍÍÍGH!".

Porque essa é uma temporada de amor, e amor significa carinho alcoolizado e um pouquinho de hipocrisia.

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2 - UM CONTO DE ABUNDÂNCIA

Eu já passei natais sozinho em casa antes, e eles foram muito bons. Coloquei as sonecas e os seriados em dia lindamente, mas esquecia de uma prevenção básica: a comida.

Natal triste é natal sem comida, e isso não é uma mensagem humanitária. Estou falando do meu próprio estômago e da vez que eu esqueci que o supermercado fecha no dia 25. Passei o dia a miojo e água, e esses alimentos são feitos para o cotidiano, não para datas especiais.

Não esse ano. Esse ano eu fui ao mercado já no dia vinte e três, e gastei uma pequena fortuna em todas as coisas que fariam minha nutricionista dar três saltos mortais pra trás tentando me impedir de comer.

Bolo, biscoito, uma seleção de pizzas congeladas, batata frita, um pacote de alguma coisa com nome em francês que estava pela metade do preço por estar próxima da validade e me fez dizer "Pourquoi pas?". Eu poderia acabar com o problema da desnutrição no Brasil com toda essa comida, e substituí-lo por um problema de obesidade e pressão alta.

Ainda assim, minha tia me mandou uma mensagem hoje de manhã:
"Flávio, eu fiz doces! Certeza que você não consegue uma carona?"
Filha da mãe! Quer dizer, da avó! Ela sabe meu ponto fraco! Ela sabe onde o meu sofrimento bate, ela sabe onde eu não sou capaz de controlar meus atos.

Ela sabe que eu sou capaz de viajar setecentos e cinquenta quilômetros por um bom Chico Balanceado. Diabos, ela sabe que eu iria a pé até o Maranhão por um bom pudim.

Mas já era tarde demais. Não dá mais tempo de ir, nem de ônibus, nem de carona.
A vida adulta é aprender a renunciar. Mas não renunciei à muita coisa.

Esse ano, eu tenho meus próprios doces.

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3 - UM CONTO DE GENEROSIDADE

Alguma coisa deixa as pessoas meio desesperadas quando elas sabem que você vai passar o Natal sozinho.

Fico comovido com a generosidade. A frase que eu mais ouvi na última semana foi "Você quer passar o Natal lá em casa? É um bando de doidos, mas tem comida!".

Dá pra perceber o quanto essas pessoas me conhecem, porque elas utilizam o argumento matador da oferta de alimentos, mas eu fico encucado com a outra parte da pergunta. Por que todas essas pessoas fazem questão de lembrar que tem um bando de doidos em casa?

Toda casa tem o seu próprio bando de doidos. Acho que o governo nem te deixa ter uma casa se ela não abrigar um bando de doidos.

Eu tenho um bando de doido aqui no meu apartamento nesse exato momento, e são só minhas múltiplas personalidades brigando por quem vai tomar o controle do meu corpo no momento em que a pizza congelada ficar pronta.

E, bando de doidos por bando de doidos, eu tenho meus próprios doidinhos lá no interior que estariam muito contentes de dividir seus pudins e dramas pessoais comigo no dia de hoje.

Estar com outros doidos me parece um pouquinho de traição.

Mas eu retribuo a generosidade: Se alguém não tiver onde passar o Natal, fique à vontade para encontrar a minha família no interior. Diga que foi enviado por mim. Faça o que eu faria: abrace meus primos, coma o doce que a minha tia fez e brigue com o meu irmão por algum motivo fútil.

Só uma condição: se ganhar algum presente, favor encaminhar para o meu endereço. É o único apartamento do prédio com a luz acesa, um cara de cueca comendo pizza congelada com o fone de ouvido no último volume, tendo um feliz, feliz, feliz Natal.

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