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Aprendendo a Falar

Dá pra separar as pessoas em dois grupos, que se formam muito cedo na vida: tem as pessoas cuja primeira palavra foi “Mamãe” ou “Papai” e as que estrearam o vocabulário falando algo como “Água” ou “Bola”.

As primeiras começam sua interação verbal requisitando a presença de pessoas, acreditando que essas pessoas podem adiantar seus desejos e trazer a elas aquilo que desejam alcançar.

As outras começam a vida verbal focando direto no objeto que desejam: dane-se a mamãe, o que eu quero é um copo d’água.

Pra efeitos de comparação, minha primeira palavra foi “biba”.
Segundo a minha mãe, foi uma tentativa de dizer “Bíblia”, que ela estava lendo na hora que eu falei, mas eu acho que foi meu jeito de dizer “Amiga, malz aí, mas o futuro que você tá planejando pra mim não vai rolar”.

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As pessoas que focam no objetivo, as que falaram “água” primeiro, procuram comunicar seus desejos bem claramente: Quero isso, não gosto daquilo, aquilo outro é inaceitável.

O outro grupo já sofre um pouco mais para se comunicar.
Passam a vida emitindo sinais não verbais de seu gosto ou descontentamento, e esperam que quem está ao seu redor compreenda o que elas querem dizer com isso.

A comunicação já é complicada o suficiente com palavras: mesmo dizendo claramente o que queremos, as palavras podem ser mal interpretadas, podemos ser ignorados, pode passar um caminhão de gás com a música no talo enquanto você fala...  agora imagina o quanto essas confusões se intensificam quando nem se tenta dizer o que quer.

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Mesmo sendo um profissional da psicologia treinado para escutar a comunicação verbal e não verbal, pode acontecer de que os sinais emitidos por um paciente sejam tão sutis que eu demore várias sessões para percebê-los.

Como eu lido com isso? Perguntando o que a pessoa está sentindo. Dando a ela a oportunidade de falar, e fazendo questão de mostrar que estou aberto para escutar qualquer questão que ela tenha em mente.

Posso não ser responsável pela comunicação do outro, mas sempre tenho a opção de deixar o caminho aberto para que ela aconteça.

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Quando alguém guarda tudo o que deseja pra si, é porque sabe o poder que suas palavras teriam se fossem botadas pra fora. A pessoa sabe o estrago que isso pode fazer, e morre de medo de ser responsável por qualquer estrago que seja.
Aí é ziper na boca, e nunca se diz com detalhes o que se deseja e o que se espera de uma situação.

Temos medo de abrir a boca porque falar é demonstrar poder. A fala é uma atitude essencialmente agressiva, e a palavra é uma evolução do rugido: é só a partir dela que conseguimos demonstrar nossa força sem efetivamente morder alguém.

Se é o rugido que faz do leão o rei da floresta, precisamos aprender a rugir também. Ou, pelo menos, a falar “água” quando estamos com sede.

Questão de prática: a agressividade precisa ser ensaiada sem medo, com a gente falando mesmo que pareça que ninguém escuta e gastando a garganta até que cada palavra nossa seja ouvida.

Só assim se retoma o poder que se dá ao outro quando se espera que ele adivinhe os seus pensamentos. Sem contar que isso tira uma ansiedade imensa da outra pessoa, que precisa se virar em oito pra tentar imaginar o que é que você está querendo dizer quando não diz nada.

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Ninguém tem a obrigação ou a capacidade de adivinhar o que você quer.
Ou você aprende a falar ou começa a namorar com o Walter Mercado. Quem sabe ele consiga te entender.

Infelizmente, custa R$4,99 o minuto.

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