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Estrogonofe

Amizades podem começar por muitos motivos diferentes.
Essa amizade em particular começou por causa de estrogonofe. Mais especificamente, por um ódio comum ao prato.

Eu devia ter uns cinco anos e nunca tinha nem experimentado estrogonofe na vida quando meus pais foram jantar na casa de um casal amigo deles.

Na mesa, a ostentação do momento: uma panela cheia do prato da moda. Não parece, mas lá no começo dos anos noventa o estrogonofe era um prato refinado, que a classe média servia pra impressionar as visitas. Era o fondue de hoje.

O filho do casal, que tinha a mesma idade que eu, fez uma careta tão feia quando viu a mesa posta que eu não pude deixar de me contaminar.

"Não gosto de estrogonofe!", disse ele. Eu nem sabia que o negócio tinha esse nome. Uma comida tão com cara de vômito e com um nome desses não tinha chance nenhuma de ser gostosa.

"Eca! Também não gosto!", eu respondi, e me recusei a comer.

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A amizade se resumiu a isso por muitos anos: a gente se encontrava e brincava de fazer estrogonofe. A gente se reunia ao redor de uma panela imaginária e jogava as coisas mais nojentas possíveis lá dentro, como se fossem os ingredientes do prato.

"Uma pessoa morta!", dizia um e mexia a panela.
"Catota de nariz!", respondia o outro.

Não era uma brincadeira com muito propósito, mas pelo menos reafirmava o nosso único elo.

A amizade durou bastante tempo, até a gente estudar junto no ensino médio e ele ir dedurar pros meus pais que me viu fumando nos fundos do colégio.

X9 dos infernos.

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Provar estrogonofe pela primeira vez foi como Adão e Eva provando a maçã pela primeira vez: um novo mundo se abriu pra mim, e eu finalmente sabia o que era bom e o que era mau.

Estrogonofe, por exemplo, era muito bom.

Me incomoda a pecha que se atribui ao estrogonofe de ser um prato brega. É brega sim, mas pôxa, é o prato mais brasileiro que existe.
"Mas e o feijão com arroz?", você pergunta.

Feijão com arroz é ótimo, mas se tem uma coisa que brasileiro gosta é de fingir que não é brasileiro. E o estrogonofe resume a vontade de ser estrangeiro com perfeição: é estrambólico e com jeito de exótico até no nome. O estrogonofe é a Kaillany Christine da gastronomia.
É até mais gostoso escrever o nome estrangeirizado: Strogonoff. Por mim o nome em português seria ainda mais rebuscado e a gente escreveria exttroghonoffy.
Super elegante.

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Já o jeito de ser é um carnaval: Nada é só sólido ou só líquido.
O estrogonofe mistura todas as texturas do mundo em uma refeição só: a pastosidade do creme de leite, a maciez fofa do arroz, a firmeza da carne/frango/camarão/palmito-se-você-for-vegetariano, a escorregabilidade do champignon...

E o brasileiro ainda vai lá e joga meio quilo de batata palha em cima, que é pra adicionar crocância. Você pode fazer dezesseis refeições diferentes na Inglaterra e não encontrar tantas texturas diferentes quanto encontra num estrogonofe de praça de alimentação.

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Em tempos de crise política, a paixão por estrogonofe é a única coisa que ainda nos une como nação.

É o estrogonofe que faz as pessoas de todas as classes sociais fazerem fila numa praça de alimentação para comprar um prato executivo.  É uma resistência sutil ao capitalismo cruel que reside na fila do Burguer King.

A pessoa que não sabe cozinhar, quando quer agradar alguém, o que faz? Estrogonofe! E fica toda feliz, se sentindo a rainha da cozinha. Essa é a autoestima que a nossa nação merece!

O estrogonofe acolhe tudo! Qualquer coisa pode ser recheio de um estrogonofe! É dessa fraternidade que o nosso país precisa agora.

Tem gente que não gosta de estrogonofe? Tem. Tem gente que acha brega? Tem, e eu sugiro que sejam extraditados.
Nosso país não tem lugar pra quem não sabe apreciar sua alta culinária.

São traidores! Exatamente o mesmo tipo de gente que te dedura pros seus pais quando você fuma um cigarro nos fundos do colégio.

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