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Lerdeza


Eu sou rápido.
Falo rápido, penso rápido, como rápido, minha cabeça funciona como aquela montagem do filme do Rocky em que corre, pula corda, sobe escadas correndo e fica muito bem preparado pra uma luta em quarenta segundos.

Sempre fui assim, ligeiro feito uma lebre.

A loucura é ver quanta gente confundia isso, nos tempos de escola, com ser inteligente. São duas coisas bem diferentes.

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Uns tempos trás um paciente meu se queixava:
"Eu não sei se vou prestar muito tempo nesse trabalho. Eu ando muito devagar, meu cérebro tá lerdo."

Eu quis provocar.
"E se você for lerdo?"

Ele não gostou da ideia e eu sugeri um exercício:
"Experimenta falar lá dentro da sua cabeça: 'Eu sou lerdo mesmo, eu sou bem devagar e não tô nem aí. Meu jeito é lerdo, eu sou lerdo e se quiser falar comigo vai ter que ser bem devagarinho! Eu sou lerdo e gosto!', e vê como você se sente."

O legal de exercícios assim é que o corpo tende a ser muito mais aberto. Perguntei como ele se sentia.
"Melhor. Confortável. Como se eu tivesse tempo pra fazer o que eu preciso."

Não tinha nada de errado nesse homem estar com o pensamento um pouco mais devagar do que o dos outros.

Uma pessoa mais desatenta escutaria a demanda dita por ele, de "preciso ser rápido" em vez de ouvir o pedido do corpo de "preciso de tempo", e que violência isso seria.

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O que muita gente precisa aprender é que se desenvolver rápido é muito diferente de desenvolver profundamente.

Sim, algumas pessoas tem muito mais rapidez na absorção e reprodução de conteúdos do que outras, mas isso só atinge uma camada muito superficial do pensamento.

Para absorver de verdade uma ideia, conhecê-la profundamente e sabê-la pelas entranhas, só com muita estrada. Você pode até tomar um vinho jovem e achar gostoso, mas algumas ideias precisam de um tempo no barril pra fermentar bem.

E mesmo que seja exatamente o mesmo aprendizado, uma pessoa que aprende uma língua lentamente, por exemplo, não vai ser menos beneficiada pelo seu aprendizado do outra que aprendeu o idioma em um mês.

Aprender rápido não é melhor do que aprender devagar. Não é uma questão de devagar e sempre, e sim de devagar e profundo.

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Sem contar que ninguém é lento pra tudo.

Eu posso escrever um texto em cinco minutos (a qualidade do que eu escrevo deixa isso bem aparente), posso absorver um sentimento muito rápido e posso fazer associações entre ideias diferentes em meio segundo.

Mas não me peça pra ter a mesma resposta rápida pra fazer conta.
Ou pra praticar esporte.
Ou pra cuidar de planta.
Ou pra me apresentar pra desconhecidos.
E pra mil outras coisas.

Mas, pra essas coisas, eu posso muito bem ser tartaruga e aproveitar o caminho, indo bem devagar, devagar, devagarinho...

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