Eu gosto muito de gente cética que procura terapia.
São pessoas extremamente racionais, que já leram muito, que não acreditam em qualquer coisa, que vão com um pé atrás para o processo terapêutico.
Em geral, essas pessoas torcem muito o nariz quando eu falo da importância de trazer relatos dos seus sonhos para a terapia.
Eles me olham como se eu fosse o Cigano Voight, leitor de tarô, interpretador de sonhos e ladrão de maridos.
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Mas não tem nada de místico em observar os sonhos.
A função do sonho é geralmente associada ao armazenamento de memórias. Por isso geralmente alguma coisa que vimos ou fizemos recentemente aparece no sonho. É uma manifestação visível de uma memória nossa sendo guardada.
Mas não importa só qual evento é guardado pelo sonho. Importa também em que gaveta das nossas memórias esse sonho é gravado.
Por isso é comum acontecer algum sonho como "Estava na minha antiga escola, mas o professor da minha turma era o meu chefe".
É bem possível que isso signifique que há algum sentimento relacionando o chefe (o acontecimento atual, a memória a ser guardada) ao ambiente escolar (a gaveta onde o inconsciente escolheu guardar a memória).
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Por isso que não pode existir um manual de interpretação de sonhos, e também por esse motivo a interpretação do sonhador é muito mais importante que a do terapeuta: é ele quem domina o território das memórias relacionadas a cada símbolo contido ali.
É através das associações que o paciente faz que vamos entender porque esse sonho foi guardar justo aquela memória bem naquela gaveta.
Pode ser que ele esteja reproduzindo com o chefe, por exemplo, uma dinâmica de poder que tenha aprendido na época de escola.
Assim, olhando pro que mais existe naquela gaveta da memória, é possível tratar o sentimento que ficou pendente daquela época e libertar o momento atual da influência daquele conteúdo que tinha ficado recalcado.
Aí, no decorrer de um processo terapêutico, essas associações vão ficando mais e mais profundas, e os efeitos dessa investigação mais libertadores.
É uma redução grosseira, mas dá pra entender a ideia.
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Quem quiser se aprofundar na ciência da interpretação dos sonhos, que é bem mais profunda do que descrevi aqui, vai precisar recorrer a vários autores com várias visões diferentes sobre o assunto.
Mas não adianta: nada é capaz de decifrar um sonho tão bem quanto a inquietude e a entrega criativa do próprio sonhador.
É um processo longo, árduo e profundo rumo ao próprio autoconhecimento.
E é justamente por me dedicar tanto a esse processo que eu passei o dia inteiro tentando entender porque diabos eu sonhei que tava cortando a unha do dedão do pé da Glória Maria.
Atualizo vocês assim que tiver notícias.
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