Pular para o conteúdo principal

Faz um moleque em mim


De tempos em tempos alguma música religiosa explode e faz sucesso além das fronteiras das rádios evangélicas. Eu tenho um gosto musical bem amplo, mas peço compreensão por não ser o maior versado em música gospel.

E mesmo quando eu escuto música assim, meu ouvido me trai.

Eu explico:
Estava assistindo um programa desses de TV local, com produção simples e dificuldades orçamentárias, e a convidada do dia era a filha adolescente de um dos membros da equipe do programa. Celebridades "A", sabe como é?

Enfim, a moça cantava - com uma dicção pior do que a da Ariana Grande - uma música que fazia muito sucesso nas rádios, mas que eu não tinha ouvido ainda.

A melodia era bonitinha, em ritmo de pagode romântico:

"Entra na minha casa, entra na minha vida,
Mexe com minha estrutura, cura todas as feridas..."

Achei fofo. Só me surpreendi quando chegou a frase final do refrão, com a adolescente cantando com sua dicção de quem usa aparelho, enquanto o pai orgulhoso dançava atrás:

"FAZ UM MOLEQUE EM MIIIIIIMMMM"

--

Eu juro que eu tento ser moderno nos assuntos de amor.

Na real, eu até sou. Pra mim, todo mundo transa do jeito que quiser, na hora que quiser e com a fantasia do Teletubbie que preferir. Não é problema meu.

Mas já aconteceu de eu perceber que sou assim muito mais na teoria do que na prática.

Eu, por mim mesmo, sou quadradão.

Sou monógamo chato, morro de ciúmes quando penso em compartilhar quem eu amo com outra pessoa e sou uma completa negação quando o assunto é sexo casual. Acabo perguntando da família da pessoa antes mesmo de abrir o zíper, só pra rolar uma intimidade antes.


--

Passei semanas com aquela música romântica-safada na cabeça.
Fiquei até meio complexado. Tá que a música era bonitinha, mas uma frase sobre trepar até fazer um moleque depois de tantas frases sobre curar feridas e a importância do amor me pareceu pesada.

Contei a história do programa de TV pra uma amiga.
"Tô preocupado, acho que eu tô virando conservador! Mas porra, 'faz um moleque em mim' é tenso!"

"É milagre, idiota!", ela respondeu. "A música fala de Deus!"

Ah, tá.

--

Tenho vários amigos com medo de estarem ficando conservadores demais.

"Eu só queria chegar e transar, sabe? Chegar metendo. Mas eu fico esquisito, não consigo curtir."

ou

"Eu não sou evoluído suficiente para o poliamor."

Com culpa! Culpa de não ser supersolto e aberto em questões românticas e sexuais. Mas não se trata de uma questão de evolução, não. É só escolha.

O sexo é uma questão íntima. Nunca vai deixar de ser.

O grau de tranquilidade com um semidesconhecido esfregando as virtudes na sua cara varia de pessoa pra pessoa.
O grau de tranquilidade com um conhecido esfregando as virtudes na cara do seu namorado também vai variar.

Liberação de verdade é permitir-se fazer o que lhe fizer se sentir melhor, seja na devassidão, seja na abstinência.

Você tem todo o direito de ser pudico e não perder pontos na evolução liberal da consciência universal.

O que importa é ser tranquilo com o outro fazendo o que quiser também.

--

Mas nada tira da minha cabeça que a adolescente do programa de TV talvez estivesse cantando moleque em vez de milagre mesmo, só pra sacanear.

Os jovens de hoje são um perigo.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Enganei o bobo na casca do ovo

Quem disse que desenho animado não é ciência?  Bem, ninguém disse isso, mas eu me surpreendi quando fiquei sabendo que um dos meus clichês preferidos de desenho infantil tem a ver com um prêmio Nobel.  Lembra quando o Tom, do Tom e Jerry - ou qualquer outro desenho da época - via um ovo chocar e o pintinho que saía de dentro o chamava de mamãe, e o seguia por todo lugar? Isso aconteceu com um cientista chamado Konrad Lorenz, que estudava biologia, psicologia e o que mais tivesse pela frente, e que um dia, tal como o Tom, viu chocar um ovinho de ganso. Bem, o histórico de Lorenz não era muito bom (com alguns estudos voltados a descobrir se "híbridos germânico-polacos" tinham a mesma capacidade de trabalho que ditos "alemães puros", aquele nazisminho básico). Ainda assim, o ganso lhe deu uma oportunidade de ressignificar sua obra, porque assim que nasceu, começou a seguir o cientista alemão. O cientista não tinha penas, não tinha os dedos dos pés grudados (que eu saib...

Dando sopa

Às vezes me sinto a pessoa mais influenciável do mundo. Estava voltando da faculdade e tentando ler um livro enquanto o ônibus chacoalhava de lá para cá. Na história, pra demonstrar a pobreza do personagem, o autor fez questão de fazer constar que ele só come sopa, em todas as refeições. Uma das cenas descrevia com riqueza de detalhes a sopa que o rapaz comia: rala, com poucos pedaços de frango, arroz do dia anterior e algumas batatas picadinhas. A intenção era despertar piedade do personagem. O efeito foi o de me deixar morrendo de vontade de comer sopa. -- Em pleno verão, bater na porta dos vizinhos mais amigáveis perguntando se eles tinham sopa não era uma opção - e sim, se fosse inverno eu teria cara-de-pau suficiente de fazer isso.  A solução foi caminhar até um hipermercado perto de casa, o único lugar aberto naquele horário. Talvez eu achasse sopa em lata por lá. -- Pelo menos quinhentas pessoas se amontoavam na entrada do supermercado. Pessoa...

Zombeteiro

Nada é mais cafona em pleno ano de 2025 do que querer um sentido pra vida. Eu não devia falar isso em voz alta, porque meu emprego literalmente é fazer as pessoas acreditarem que algum sentido deve existir e aí passar duzentas sessões correndo atrás disso.  É uma profissão que, para os ingênuos, é muito bonita e faz muito sentido.  Bobagem. Eu gosto de ser terapeuta e acredito de verdade que algum bem eu devo fazer pros meus pacientes, mas esperar sentido disso? Cafona.  O sentido de qualquer trabalho é sair do trabalho e não fazer nada. -- A vida mais sem sentido talvez seja a com mais sentido: ficar aqui por um tempo, trabalhar um tanto, comer algumas coisas gostosas e ocasionalmente passar a mão num gato. Depois, pendurar as chuteiras, sem culpa nenhuma, e dormir pra sempre.  É o verdadeiro paraíso.  Nunca pensei "que ódio, vou tirar uma sonequinha depois do almoço" ou acordei pensando "que experiência horrível essa de me desacoplar da vida por uns minutinhos...