Pular para o conteúdo principal

Neuzinha


A Neuza estudava comigo na faculdade.

Um pouco mais velha que a maior parte dos colegas, já tinha filha quase da minha idade quando começamos a estudar juntos. Mas não era por isso que ela se destacava.

Sabe quando dizem que alguém tem uma luz?
A Neuzinha tem holofotes dignos de um sambódromo.

Fiz tudo o que eu pude pra ficarmos amigos.
Não que seja difícil conquistar sua amizade, o duro é conseguir um horário. São tantos amigos, tanta gente querendo um pedacinho daquela mulher, que é um esforço hercúleo se manter próximo dela.

Mas compensa.
O brilho dela sempre me trouxe vantagens.

Estávamos no boteco? Vinha uma cerveja de brinde porque o dono do bar era apaixonado por ela.
Íamos na vidente? A cigana fazia até um café pra ficar conversando por mais tempo, só por gostar dela.
Precisávamos chorar uma notinha com o professor? Era só levar a Neuzinha junto que os décimos a mais eram garantidos.

--

Minha amizade não era nada inocente.
Eu queria um pouco daquilo pra mim. Precisava aprender com ela como ter essa capacidade de fazer todo mundo se apaixonar.

Não aprendi nada, mas pelo menos conseguia uma ajudinha de vez em quando.

Quando eu brigava com meu namorado, passava o telefone pra Neuza e pedia:
"Briga com ele por mim?"
Em duas ou três frases que ela falava, o moço já ficava pianinho uma semana inteira.

Quando eu estava solteiro e querendo ficar com alguém, passava o celular pra Neuza e pedia:
"Faz ele me querer, por favor?"
De novo, duas ou três frases bastavam pra deixar os caras interessados - até eu voltar a conduzir a conversa e cagar com tudo de uma vez.

--

Neuzas à parte, esses dias uma amiga veio me pedir conselhos amorosos.

"Flávio, você entende dessas coisas, me ajuda. Eu tô apaixonada por um cara do meu trabalho, certo?"
"Certo não é, mas diga."
"E eu tive um surto de coragem, adicionei ele no Facebook"
"Ele aceitou?"
"Sim."
"Que legal!"
"Mas aí eu pensei que eu não tenho ninguém do trabalho no Facebook, e que ele ia achar estranho... E que eu ia me encontrar com ele na segunda-feira..."
"E aí?"
"E aí eu bloqueei ele e tô morrendo de vergonha."

Porra, colega.
Aconselhei do jeito que eu posso e disse que é super normal dar em cima de alguém, e que não era pra tanto, mas... honestamente, eu sou um hipócrita.

--

Outro dia eu fiquei interessado num amigo do meu irmão.
Meu irmão é tão firmeza que fez as relações diplomáticas por mim. Sondou de lá, sondou de cá e falou pra ir fundo que tava no papo.

Infelizmente eu não sei ir fundo, não.

Pôxa vida, não era pra ser difícil. Eu tenho experiência em jogar charme, passo todos os meus dias conversando com pessoas, era pra lábia ser tranquilíssima.

Fiquei dias com a janela do menino aberta no Messenger até tomar uma atitude.
Percebam a genialidade do meu papo:

"Nossa, passou um mendigo aqui pedindo água que tinha a voz igualzinha a sua!"
e, dois minutos depois:
"Putz, janela errada! Foi mal!"

--

Contei pro meu irmão e ele ficou indignado:
"PQP, Flávio, era só dizer Oi! OI! Eu já tinha feito o meio de campo, custava dar só um oi?"

Droga.

Nisso o menino respondeu:
"kkk acontece"

O que eu fiz, gênio que eu sou?
Não respondi mais, pra ele pensar que eu realmente me enganei de pessoa e eu não passar por idiota.

Nunca mais disse um "a" pra ele, por maior que fosse o crush.

Eu devia ter dado chance é pro mendigo que veio pedir água, que pelo menos puxou a conversa.

--

O que eu quero dizer é que preciso monetizar a Neuza.
Talvez se ela virasse coach e desse uns cursos?

"DEZ PASSOS PRA SE INSINUAR SEM MORRER DE VERGONHA"
"WORKSHOP: Dando oi pra pessoa que você tá a fim"
"PAQUERA HIGH STAKES: Como fazer um flertezinho de alta performance"

Dá pra cobrar bem caro. Eu pagaria.

--

Também dava pra montar uma sala com vários computadores, e deixar ela o dia todo se passando por outras pessoas.

Problemas de sedução? Chama a Neuzinha.
Passando por um divórcio? Converse com a Neuza.
Assassinou uma pessoa e agora namora só por cartas que recebe na cadeia? A Neuza escreve por você.

Tudo a um precinho muito camarada.

Claro que vou cobrar meus dez por cento da Neuzinha pela ideia.
Se eu não tenho lábia suficiente pra ser feliz no amor, pelo menos vou ter pra ficar rico.

Comentários

Postar um comentário

Postagens mais visitadas deste blog

Enganei o bobo na casca do ovo

Quem disse que desenho animado não é ciência?  Bem, ninguém disse isso, mas eu me surpreendi quando fiquei sabendo que um dos meus clichês preferidos de desenho infantil tem a ver com um prêmio Nobel.  Lembra quando o Tom, do Tom e Jerry - ou qualquer outro desenho da época - via um ovo chocar e o pintinho que saía de dentro o chamava de mamãe, e o seguia por todo lugar? Isso aconteceu com um cientista chamado Konrad Lorenz, que estudava biologia, psicologia e o que mais tivesse pela frente, e que um dia, tal como o Tom, viu chocar um ovinho de ganso. Bem, o histórico de Lorenz não era muito bom (com alguns estudos voltados a descobrir se "híbridos germânico-polacos" tinham a mesma capacidade de trabalho que ditos "alemães puros", aquele nazisminho básico). Ainda assim, o ganso lhe deu uma oportunidade de ressignificar sua obra, porque assim que nasceu, começou a seguir o cientista alemão. O cientista não tinha penas, não tinha os dedos dos pés grudados (que eu saib...

Dando sopa

Às vezes me sinto a pessoa mais influenciável do mundo. Estava voltando da faculdade e tentando ler um livro enquanto o ônibus chacoalhava de lá para cá. Na história, pra demonstrar a pobreza do personagem, o autor fez questão de fazer constar que ele só come sopa, em todas as refeições. Uma das cenas descrevia com riqueza de detalhes a sopa que o rapaz comia: rala, com poucos pedaços de frango, arroz do dia anterior e algumas batatas picadinhas. A intenção era despertar piedade do personagem. O efeito foi o de me deixar morrendo de vontade de comer sopa. -- Em pleno verão, bater na porta dos vizinhos mais amigáveis perguntando se eles tinham sopa não era uma opção - e sim, se fosse inverno eu teria cara-de-pau suficiente de fazer isso.  A solução foi caminhar até um hipermercado perto de casa, o único lugar aberto naquele horário. Talvez eu achasse sopa em lata por lá. -- Pelo menos quinhentas pessoas se amontoavam na entrada do supermercado. Pessoa...

Zombeteiro

Nada é mais cafona em pleno ano de 2025 do que querer um sentido pra vida. Eu não devia falar isso em voz alta, porque meu emprego literalmente é fazer as pessoas acreditarem que algum sentido deve existir e aí passar duzentas sessões correndo atrás disso.  É uma profissão que, para os ingênuos, é muito bonita e faz muito sentido.  Bobagem. Eu gosto de ser terapeuta e acredito de verdade que algum bem eu devo fazer pros meus pacientes, mas esperar sentido disso? Cafona.  O sentido de qualquer trabalho é sair do trabalho e não fazer nada. -- A vida mais sem sentido talvez seja a com mais sentido: ficar aqui por um tempo, trabalhar um tanto, comer algumas coisas gostosas e ocasionalmente passar a mão num gato. Depois, pendurar as chuteiras, sem culpa nenhuma, e dormir pra sempre.  É o verdadeiro paraíso.  Nunca pensei "que ódio, vou tirar uma sonequinha depois do almoço" ou acordei pensando "que experiência horrível essa de me desacoplar da vida por uns minutinhos...