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Nós, psicóticos


Passar tempo ao lado de uma pessoa psicótica é como visitar um país em que a cultura é completamente diferente, a língua é outra e todos querem te bater.

Psicose, pra quem não é do ramo, é um termo guarda-chuva pra casos de extrema desorientação e falta de contato com a realidade. O pensamento é desorganizado e não há representação simbólica que conforte o desespero que isso provoca.

Ainda na faculdade me enfiei em uns estágios na área. Acompanhamentos terapêuticos, estágios em hospitais psiquiátricos, coisas assim.

Nem gosto de compartilhar detalhes dos casos porque é muito fácil reduzir uma pessoa com um transtorno desses ao comportamento bizarro que ela tem. É mais fácil lidar com "o cara que enfiou um lençol inteiro na bunda e depois tirou pra mostrar como ele estava sujo por dentro" do que com "a pessoa com um desespero que não se acalma jamais e que, num momento de angústia pesada, precisou agredir seu corpo em busca de um fiapo de segurança".

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Eu, todo anta, levei um susto ao perceber que psicologia não era só o aconselhamento no final do Casos de Família, e que a gente precisaria lidar com a loucura real, escarrada na nossa cara.

Chegava em casa do estágio e caía no choro. Talvez por excesso de empatia, talvez pelo impacto de uma doença mental que não faz esforço nenhum para fingir que não existe.

Desde então, não trabalhei mais com esse tipo de quadro. Tem profissionais muito melhores que eu pra aguentar esse tranco.

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Eu lembrei dessa história porque eu também estou sofrendo de um transtorno muito difícil.

No caso, a sinusite.

"Mas Flávio, isso não faz o menor sentido numa conversa numa conversa sobre transtornos mentais!"

Fresco eu sou mesmo, mas explico como isso fez algum sentido - ainda que psicótico - na minha cabeça: Sem conseguir respirar direito, minhas noites tem sido horríveis.

Quando consigo pegar no sono, os sonhos são intermináveis e brutais. As histórias não fazem sentido, a falta de ar cria pensamentos repetitivos de perseguição e violência que não parecem acabar nunca e a sensação é de angústia constante.

Dou uma acordadinha de leve, com a cama encharcada de suor, e caio no sono novamente.

Outra vez, pesadelos, desorientação e angústia. A operação se repete a noite inteira.
Que fase.

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Ainda assim, só uma fase. Eu sei que a noite (se não a sinusite) vai acabar e tudo vai voltar ao normal.

Acordar é um alívio, mas também me assusta.
Serve pra mostrar como é uma benção ter um mínimo de organização de pensamento.

Ter noção de onde está, de quem é, do que são as coisas ao seu redor... Nossa vida toda se baseia nessa noção de segurança, que a gente toma por certa, mas que não é.

Nos choca tanto estar perto de uma pessoa com transtorno psicótico grave por que eles deixam na cara como a nossa pretensa sanidade é frágil.

Para eles, a noite de pesadelos não acaba.

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Por isso faz tão mal a ideia de confinar pessoas com um comportamento fora do padrão em hospitais psiquiátricos.

Em geral, a loucura é inofensiva. Até positiva, se a gente olhar o quanto ela escancara os problemas que a sociedade procura esconder.

Uma pessoa considerada louca não precisa ser (mais!) isolada, reprimida, e escondida. Precisa de afeto, ainda que o afeto a uma pessoa "louca" seja um dos mais difíceis de se dar.

Um afeto absurdo, não lógico, escapa às relações de consumo a que estamos acostumados.

Mas o amor real vive mesmo no campo do absurdo.

Aprender a amar o absurdo do outro pode ser um bom veículo pra conseguir amar os próprios absurdos - que, venhamos e convenhamos, não são poucos.

Se fossem, a loucura não incomodaria tanto assim.

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