Pular para o conteúdo principal

Do avesso



Repita comigo:
EU NÃO ESTOU ENLOUQUECENDO SÓ PORQUE ESTOU MUDANDO

Repetiu? Se não sentiu confiança no que falou, tenta assim:

EU ESTOU ENLOUQUECENDO MESMO, MAS É PARA MELHOR

--

Não estou mais dando conta de tanta gente vindo conversar comigo em pânico por estranhar o próprio comportamento. A pessoa sempre foi de um jeito, de repente acorda de outro e é um Deus nos acuda.

Só que nem tem tanto assim pra acudir: não há nada de necessariamente errado contigo se você sempre foi uma pessoa organizada e agora está um pouco mais bagunceira.
Isso não é doença. Você não começou a fazer cocô na caixa de giz-de-cera e desenhar gansos na parede, você só está exercitando o seu lado mais desencanado.

Você não está ficando um brutamontes agressivo só porque começou a dizer não para aquilo que não te agrada. Foi só uma transformação natural: antes você era uma pessoa que aguentava tudo calado e agora não aguenta mais. Super bacana.

Assim como ninguém vai morrer solitário numa masmorra só porque deixou de ser a pessoa que sai sete dias por semana. Seus gostos apenas mudaram. Calma.

--

Pode ser bom fazer as pazes com essa parte nova de você.
Às vezes seu comportamento só está diferente, não patológico. É assim que se evolui.

Esse é o verdadeiro significado de aceitação: gostar de si mesmo o suficiente para não arrancar os cabelos quando uma característica que costumava lhe definir vai embora.

Gente é feito uma casa muito grande que nunca fica limpa por inteiro: quando a gente termina a faxina num canto da casa, o outro lado já está coberto de pó.

O processo de autoconhecimento nunca acaba. Quando a gente pensa que conheceu tudo o que tinha por dentro, as coisas viram do avesso e tem um dentro completamente novo pra conhecer.


A única saída é continuar se investigando.

--

Não é porque você sempre foi de um jeito que vai precisar ser assim para sempre.
Pessoas mudam.

E, como diria Rita Lee, toda mudança é pra melhor - mesmo quando é pra pior.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Enganei o bobo na casca do ovo

Quem disse que desenho animado não é ciência?  Bem, ninguém disse isso, mas eu me surpreendi quando fiquei sabendo que um dos meus clichês preferidos de desenho infantil tem a ver com um prêmio Nobel.  Lembra quando o Tom, do Tom e Jerry - ou qualquer outro desenho da época - via um ovo chocar e o pintinho que saía de dentro o chamava de mamãe, e o seguia por todo lugar? Isso aconteceu com um cientista chamado Konrad Lorenz, que estudava biologia, psicologia e o que mais tivesse pela frente, e que um dia, tal como o Tom, viu chocar um ovinho de ganso. Bem, o histórico de Lorenz não era muito bom (com alguns estudos voltados a descobrir se "híbridos germânico-polacos" tinham a mesma capacidade de trabalho que ditos "alemães puros", aquele nazisminho básico). Ainda assim, o ganso lhe deu uma oportunidade de ressignificar sua obra, porque assim que nasceu, começou a seguir o cientista alemão. O cientista não tinha penas, não tinha os dedos dos pés grudados (que eu saib...

Dando sopa

Às vezes me sinto a pessoa mais influenciável do mundo. Estava voltando da faculdade e tentando ler um livro enquanto o ônibus chacoalhava de lá para cá. Na história, pra demonstrar a pobreza do personagem, o autor fez questão de fazer constar que ele só come sopa, em todas as refeições. Uma das cenas descrevia com riqueza de detalhes a sopa que o rapaz comia: rala, com poucos pedaços de frango, arroz do dia anterior e algumas batatas picadinhas. A intenção era despertar piedade do personagem. O efeito foi o de me deixar morrendo de vontade de comer sopa. -- Em pleno verão, bater na porta dos vizinhos mais amigáveis perguntando se eles tinham sopa não era uma opção - e sim, se fosse inverno eu teria cara-de-pau suficiente de fazer isso.  A solução foi caminhar até um hipermercado perto de casa, o único lugar aberto naquele horário. Talvez eu achasse sopa em lata por lá. -- Pelo menos quinhentas pessoas se amontoavam na entrada do supermercado. Pessoa...

Zombeteiro

Nada é mais cafona em pleno ano de 2025 do que querer um sentido pra vida. Eu não devia falar isso em voz alta, porque meu emprego literalmente é fazer as pessoas acreditarem que algum sentido deve existir e aí passar duzentas sessões correndo atrás disso.  É uma profissão que, para os ingênuos, é muito bonita e faz muito sentido.  Bobagem. Eu gosto de ser terapeuta e acredito de verdade que algum bem eu devo fazer pros meus pacientes, mas esperar sentido disso? Cafona.  O sentido de qualquer trabalho é sair do trabalho e não fazer nada. -- A vida mais sem sentido talvez seja a com mais sentido: ficar aqui por um tempo, trabalhar um tanto, comer algumas coisas gostosas e ocasionalmente passar a mão num gato. Depois, pendurar as chuteiras, sem culpa nenhuma, e dormir pra sempre.  É o verdadeiro paraíso.  Nunca pensei "que ódio, vou tirar uma sonequinha depois do almoço" ou acordei pensando "que experiência horrível essa de me desacoplar da vida por uns minutinhos...